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Guerreiros anônimos – por @betapalma

“O que me emociona são esses poucos mais de 2 mil corredores que, num universo mensurado em 4 milhões de praticantes de corrida de rua, “comeram” 42K de asfalto quente em São Paulo e completaram uma maratona. Esses para mim também são elite.”

HOJE o despertador não tocou. Em pleno domingo era para ele me acordar às 5h30 e ele me boicotou, não despertou. Acordei às 6h30 com a claridade já entrando no quarto e, sonolenta, tentei raciocinar: “nossa, não é domingo? Não está mais escuro? Eu não tinha que ir para o Ibirapuera? Hoje não é dia da Maratona de S. Paulo?

Minha programação não era correr a Maratona de São Paulo (nem treino para isso). Era simplesmente encontrar e incentivar os amigos que iam encarar kms e mais kms pelas ruas de São Paulo. Dois blogueiros do Jornal Corrida fariam os 42K. Muitos amigos, leitores e parceiros estariam nos 25 ou nos 10K. E o despertador me dá um furo desses, simplesmente não toca?

Sabia que perderia a largada, mas me troquei rapidamente, bati o whey com leite, tomei um expresso, peguei a máquina fotográfica, coloquei umas frutas e água na mochila e fui. Tinha avisado que estaria na Av. República do Líbano, ali perto do quilômetro 41, esperando o pessoal passar. E foi o que fiz. Cheguei lá e a turma dos 10K já lotava a rua, completando a prova. Naquele “vácuo” entre os últimos dos 10k e a chegada da turma da elite da maratona fui circular pela arena de chegada.

Dezenas de tendas de assessorias e aquela “muvuca” deliciosa que só quem corre sabe o que é e gosta. Já era hora de voltar para meu “posto” lá na avenida, quando cruzei com os campeões chegando em seus tempos sub 2h30. Sabia que a minha turma ainda demoraria, por isso, fui andando, sem pressa, no contra fluxo, observando o semblante daqueles maratonistas rápidos, franzinos (mas fortes ao mesmo tempo) que mal tocam o chão a cada passada.

Marcava 11 horas, na última subidinha dos 42 quilômetros, ali na mais charmosa avenida paulistana (para mim São Paulo deveria ter mais avenidas como a República do Líbano), quando começaram a apontar os amadores (quem faz uma maratona, não minha opinião, não é amador, independente do tempo). Daquele momento até às 14 horas fiquei ali, decifrando mensagens em gestos, olhares, semblantes de muita dor, sorrisos largos, outros tímidos. Foram 3 horas de pura emoção, junto com amigos desconhecidos.

Entre um clique e a espera pela “minha turma”, gritei, incentivei, chorei e apoiei como pude aqueles guerreiros que passavam correndo. Lembra aquelas frutas que peguei ao sair de casa? Eram poucas, mas foram todas distribuídas entre os atletas. Um corredor jovem, deu uma travada na minha frente e disse: “câimbra”. Lembrei da banana na mochila, peguei e dei pra ele – que devorou em duas mordidas, agradeceu e seguiu trotando. Sem desistir. Depois disso, peguei a dúzia de mexiricas e comecei a descascar e a distribuir. Um outro parou, eu ofereci água e ele confidenciou: “minha perna não agüenta mais, meu bolso está furado e eu perdi os BCAAs”. A mochila nas minhas costas com equipamentos, tablet e frutas era mesma que levo nos treinos e tinha a caixinha de BCAA. Disse para o rapaz: “eu tenho, você quer?” Ele abriu o sorriso, aceitou. Terminou a água e seguiu seu caminho.

Aí chegou meu amigo e blogueiro Arthur Borelli. Eu tinha acabado de olhar o relógio. No sábado ele havia me dito que queria fechar em 3h30, mas que achava que não daria. E ia dar. Quanto vi que ele se aproximava e pelas minhas contas ele cravaria abaixo de 3h30, me emocionei, os olhos marejaram e eu nem consegui dizer nada. Peguei um último pedaço de fruta que tinha, dei pra ele que seguiu sorrindo para bater seu recorde pessoal.

Enquanto esperava a Fernanda Ferraresi Fernandes, passaram muitos rostos desconhecidamente familiares. Passou o Gerson, o Celso, a Maria (que sorria como se tivesse começando a prova), o Patrick, o Izael, o corintiano, a Denize, a Cleide, o Oscar (6060) – esse me impressionou, pois já não era tão jovem, cabelinhos grisalhos, o olhar e sorriso eram serenos, as pernas mantinham uma cadência ritmada, em paz, tranqüilo. Vi caminhando o Marcos – meu querido maratonista que todas as 6as feiras encontro e falamos sobre corrida, enquanto espero na recepção do meu analista, no prédio onde ele trabalha. Chegou me abraçando e eu logo soltei: “nada de parar rapaz, agora é cabeça e coração, você não precisa de perna, vai!” E ele saiu correndo, devagarinho… E aí, no meio de um bolo de gente estava a Fernanda, a FFF. Chegou dizendo: “Boss (como ela insiste em me chamar…rss) tá punk!”. Quando ela disse isso, nem a foto eu tirei, minha única reação foi correr ao lado dela os poucos metros que faltavam. Eu já não tinha mais fruta, BCAA, água, nada. Ela sentia dores, xingava (coisa rara em se tratando de FFF), dizia que era a prova mais difícil e dura que já tinha feito. Fui trotando ao lado dela, com mochila e equipamentos nas costas, por 500 metros. Mas vi que ela estava bem. Dolorida e emocionada, mas bem. Então, disse: Fer, você está bem, agora são os 500 metros finais, vai embora que acabou! E lá foi ela, forte, sem nem olhar para trás.

Fiquei ali, 500 metros da chegada, esperando a turma do Klabhia Team passar. A Claudia, a Bia, o Roberto Itumira, todos chegando juntos, sob o sol das 13 horas. Felizes, uma cena linda de ver. E para fechar a prova cheia de emoções, a turma do professor Tavares: dezenas de corredores juntos com ele, carregando a faixa e gritando frases em homenagem ao professor Fábio, que faleceu recentemente indo participar de uma prova no Espirito Santo.

Quem me conhece, sabe que vivo brincando com o título daquele livro do Murakami: “Do que eu falo quando eu falo de corrida”. É disso. É de emoção, superação, coragem e amizade. Realmente não me interessam tempos. Gente é o que me interessa. O que me guia, o que me pauta para fazer o Jornal Corrida são histórias de pessoas como essas que citei ao longo deste texto.

Não é o famoso, o primeiro lugar. Esses têm tantos blogs, revistas para contar suas vitórias. Interessam para mim as histórias dos anônimos que fizeram os 10, os 25K. O que me emociona são esses poucos mais de 2 mil corredores que, num universo mensurado em 4 milhões de praticantes de corrida de rua, “comeram” 42K de asfalto quente em São Paulo e completaram uma maratona. Esses para mim também são elite. E tem meu respeito. Parabéns a todos esses guerreiros que completaram a Maratona de São Paulo neste domingo.

créditos fotos: Fernanda Balster (foto FFF)/@betapalma (outras fotos)

robertaRoberta Palma é jornalista por formação, marketeira por vocação e esportista por amor. Criou o JORNAL CORRIDA por acreditar que a prática esportiva é uma ferramenta de formação do indivíduo e de promoção de saúde e qualidade de vida.

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