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Correr para dormir. Dormir para correr

Aparentemente, as duas atividades parecem bastante diversas já que, em essência, o sono implica repouso e atividade física é sinônimo de movimento. Porém, a relação é bem próxima: ambas são fundamentais, trazem bem-estar e melhoram a saúde. E mais: o exercício favorece a qualidade do sono e uma noite bem dormida contribui para o rendimento nos treinos e provas. Na verdade, essas duas necessidades são complementares – e não vale a pena abrir mão de uma pela outra. O ideal é conciliá-las. Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Psicobiologia do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que os exercícios podem auxiliar no tratamento e prevenção de alguns distúrbios do ciclo sono – seja diretamente, por diminuir a fragmentação do repouso, ou indiretamente, por garantir o controle de peso e a aquisição de hábitos saudáveis.

“Atualmente, os exercícios são reconhecidos pela American Sleep Disorders Association como uma intervenção não-farmacológica para a melhora do padrão de sono”, afirma o médico Sergio Tufik, coordenador-geral do Centro de Estudos do Sono. “Porém, efetivamente, a prescrição de atividades físicas com essa finalidade ainda é reduzida, possivelmente como um reflexo da falta de conhecimento por parte de professores e médicos dos benefícios dos exercícios nessa área.” Médicos observam, por exemplo, que a redução do metabolismo e a sensação de fadiga descrita por pessoas privadas de sono reforçam a hipótese de que o ato de dormir tenha uma função restauradora.

Segundo o Tufik, doutor em psicofarmacologia pela Escola Paulista de Medicina e professor do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, um levantamento epidemiológico da prática de atividade física na cidade de São Paulo mostrou que as queixas de insônia e de sonolência excessiva, entre os entrevistados que realizam atividade física regularmente, eram de apenas 27,1% e 28,9%, respectivamente, enquanto entre os não praticantes foram de 72,9% e 71,1%, respectivamente.

 

DE OLHO NO RELÓGIO

No entanto, é fundamental, que o treino não seja feito imediatamente antes do horário de dormir. O ideal é que haja um intervalo mínimo de três horas entre o fim do exercício e o momento de ir para a cama, pois durante o treino há elevação da temperatura corporal, o que prejudica o relaxamento e o descanso noturno. Em linhas gerais, é como se nosso organismo precisasse “esfriar” para descansar melhor. Além disso, em geral, o corpo libera é maior quantidade de endorfina ao longo do dia e, por isso, a disposição física tende a ser maior. No período noturno, há menos dessa subs-tância no corpo. É por isso que muitos especialistas recomendam que as atividades sejam feitas na parte da manhã ou à tarde para melhorar o sono. Mas se a noite for o único momento que a pessoa tem para se exercitar, é preciso escolher treinos adequados, eventualmente mais curtos atividades de menor intensidade, segundo orientação do treinador.

Faz bem para a cabeça
Não é nenhuma novidade que o exercício físico contribui para a prevenção de doenças cardiovasculares e metabólicas. Hipócrates, considerado o pai da medicina na Grécia Antiga, já dizia que o caminho mais seguro para a saúde é o equilíbrio entre atividade física e alimento. Séculos se passaram e a ciência confirma por meio de diversos estudos que o nosso organismo foi programado geneticamente para o movimento, sendo necessário nos mantermos fisicamente ativos para que as nossas células, desde as fibras musculares até os neurônios, possam atingir a melhor funcionalidade.
Por outro lado, vários estudos desenvolvidos em laboratório são enfáticos ao apontar o papel crucial do sono tanto antes quanto depois da formação de novas memórias. Para estar apto ao aprendizado, o cérebro precisa primeiro passar por várias horas de sono sem perturbações. Isso permite a eliminação de neurotoxinas e a reposição de metabólitos dispendidos durante a vigília. Após o aprendizado, o sono promove a consolidação e restruturação por meio de mecanismos que vêm sendo esclarecidos nas últimas décadas. Ou seja: a ciência mostra que dormir bem e praticar atividade física com regularidade não fazem bem apenas para o corpo e também para o cérebro.

 

 
 
 
 
matéria publicada na ed. 36 do Jornal Corrida