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Corrida contra a epilepsia

Ao longo dos tempos, a epilepsia sempre gerou preconceito, devido em grande parte à desinformação sobre a doença. Várias personalidades apresentaram os sintomas, entre elas o filósofo grego Sócrates, Napoleão Bonaparte, os escritores Machado de Assis, Gustave Flaubert e Fiódor Dostoievski. Apesar da associação com criatividade e arte, durante muito tempo acreditava-se que a doença fosse contagiosa (o que de fato não é) e que espíritos do mal tomassem conta da pessoa durante a crise. Felizmente, com o avanço da ciência, é possível saber que causas orgânicas levam ao problema e combater o estigma.

É muito comum pessoas com epilepsia apresentarem sintomas de depressão e ansiedade, além de uma baixa autoestima e problemas emocionais que prejudicam a qualidade de vida. Uma pesquisa feita na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) junto a um grupo de 80 pacientes com epilepsia demonstrou que a prática de atividades físicas pode proporcionar diversos benefícios nos aspectos psicológicos deste grupo. Entre os praticantes de atividade física houve uma melhora significativa na autoestima, na diminuição dos sintomas depressivos, no aumento da resiliência e na percepção sobre a qualidade de vida.

Segundo o neurologista do HCor Neuro, Dr. Mauro Atra, ao mesmo tempo em que o exercício físico modifica positivamente os aspectos fisiológicos e psicológicos de pessoas com epilepsia, restringi-los a participação de atividades físicas ou esportivas pode causar efeitos deletérios físicos e mentais. “Restringir esses indivíduos do exercício físico pode causar um sentimento de inferioridade que pode levar à depressão e à ansiedade. Acredita-se que as alterações emocionais decorridas pela restrição da atividade esportiva nestes indivíduos são mais prejudiciais que as próprias crises epilépticas”, diz o especialista.

Além da importância do medicamento, a atividade física pode ser uma aliada no controle das crises, já que melhora a autoestima, aumenta a sensação de bem-estar e ajuda a evitar a depressão e a ansiedade. “O primeiro passo é procurar pelo médico e verificar quais exercícios são indicados, pois a aprovação e intensidade dependerão do grau apresentado por cada indivíduo, ou seja, não é indicado fazer qualquer exercício por contra própria.
A corrida está entre as atividades indicadas pois melhora as funções cardiorrespiratórias e vasculares e a frequência cardíaca, que podem ser comprometidas pelas medicações antiepilépticas. Além disso, é fundamental na sociabilização do indivíduo.

Descargas elétricas no cérebro
A palavra “epilepsia” vem do grego e quer dizer “surpresa” ou “acontecimento inesperado”. É uma denominação adequada, já que a crise surpreende não só o próprio paciente, mas também quem esta por perto. Durante a crise, repentinamente, a pessoa perde a consciência e cai. Os músculos se contraem e relaxam várias vezes, seus membros ficam rígidos e ela se debate com movimentos ritmados. Nesse momento, é como se cérebro se “desorganizasse”, em razão de descargas elétricas anormais. Na grande maioria dos casos, a crise desaparece pouco depois e a pessoa “acorda” sonolenta.

“Trata-se, na verdade, de um sintoma que ocorre quando, por algum motivo, um grupo de células cerebrais se comporta de maneira hiperexcitável, o que pode causar a crise”, explica o médico Li Li Min, professor de neurologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a epilepsia é um problema de saúde pública, com alta prevalência mundial, já que afeta entre 1% e 2% da população em geral – o que representa aproximadamente representam 70 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, há estimativas de que mais de 3 milhões de tenham alguma forma de epilepsia.

Como ajudar durante a crise
Como a pessoa se debate neste momento, é importante apoiar sua cabeça para evitar que se machuque. Também é recomendável virar seu rosto de lado para eliminar o acúmulo de saliva ou mesmo impedir que ela se asfixie caso vomite. Além disso, é indispensável ficar calmo e apenas aguardar que a crise passe. A crença popular de que a língua enrola e pode ser engolida não tem nenhum fundamento. O máximo que pode acontecer é o paciente mordê-la, mas certamente cicatrizará depois. Por isso, não coloque a mão na boca durante o ataque, pois pode tanto ferir tanto o doente quanto aquele que tenta ajudar.

 

 

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matéria publicada na ed. 38 do Jornal Corrida