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Como a ciência ajuda você a correr melhor

Pesquisadores garantem que é possível usar cérebro e a mente a seu favor na hora de fazer atividade física.

A última coisa que passa pela cabeça dos corredores enquanto se preparam para um treino ou uma prova é que, em vários centros de pesquisas e universidades ao redor do planeta, inúmeros cientistas se empenham em encontrar maneiras de melhorar seu rendimento durante o exercício. E não se trata apenas de criar tecnologias para aumentar o conforto das roupas, diminuir o atrito ou encontrar o material para confeccionar tênis que favoreçam a absorção do impacto de cada passada ou seja indicado (e seguro) para os diferentes tipos de terrenos.

De fato essas adequações práticas são fundamentais. Mas, sem o respaldo emocional, de nada adianta a força física, a capacidade muscular de cumprir desafios ou a paramentação do atleta com os mais modernos acessórios. É por isso que cada vez mais pesquisadores têm buscado detectar maneiras eficientes para que os corredores possam lidar com as próprias dificuldades psicológicas.

A seguir, cinco orientações embasadas em conclusões de estudos mostram que a ciência pode ajudar você a correr melhor. Curiosamente, as conclusões às quais os cientistas chegaram não são exatamente novidades, muitas delas já adotamos intuitivamente. O melhor, porém, é saber que insistir nelas pode realmente ajudar você usar o cérebro e a mente a seu favor na hora de fazer atividade física.

 

1. Estabeleça uma meta clara
Ainda na década de 90, os pesquisadores americanos Edwin Locke e Gary Latham demonstraram que quanto mais específico e detalhado for um objetivo, maiores as chances de alcançá-lo. Centenas de estudos subsequentes confirmaram essa constatação. Então, em vez de almejar ser simplesmente um “corredor melhor”, a primeira coisa que a fazer é definir claramente o resultado que se pretende alcançar. Claro que isso vale para outras áreas da vida, mas quando se trata de corrida, é possível pensar em alguns exemplos: a cada treino, acrescentar um quilômetro e meio à sua maior distância percorrida ou tentar diminuir seu tempo mais recente de corrida em um minuto. Colocar para si mesmo a meta de fazer determinada prova numa data específica também costuma ser muito eficiente. “Assim, no aproximamos do que queremos e isso ajuda nosso cérebro a trabalhar com possibilidades concretas”, afirma a doutora em psicologia Cheryl Wakslak, professora do Departamento de Administração e Organização da Universidade do Sul da Califórnia.

 

2. Não se importe tanto com o desconforto
“Aceite as dificuldades que surgem”. Essa uma frase emprestada dos soldados da Operação Liberdade Iraquiana se tornou uma espécie de mantra para corrida, utilizado por Cindra Kamphoff, diretora do Centro de Psicologia do Esporte e Desempenho na Universidade Estadual de Minnesota. Ela mesma concluiu 11 maratonas. “Correr é prazeroso, mas não o tempo todo, especialmente quando se está começando, mas se você sabe que terá de se superar e se planeja para isso, percebe que é perfeitamente capaz de suportar algum desconforto”, diz a diretora. O doutor em fisiologia Jack Lesyk, diretor do Centro Ohio para Psicologia do Esporte em Beachwood, concorda: “Minha primeira corrida foi de 400 metros e quando terminei pensei que ia sofrer um ataque cardíaco. Mas estava determinado a exceder aquela distância no dia seguinte, e no dia depois daquele.” Ele ressalta que, obviamente, não se trata de ignorar os sinais do organismo ou se exigir esforços absurdos de uma hora para outra, mas saber que é possível superar-se.

 

3.Torne-se competitivo
O especialista em comportamento e marketing Gavin Kilduff, professor da Universidade de Nova York, coordenou uma equipe que examinou dados acumulados ao longo de seis anos sobre desempenho em corrida e entrevistou corredores sobre seus potenciais “adversários” – pessoas com idades e habilidades semelhantes às dos voluntários, com os quais correram com frequência e em relação aos quais se sentiam competitivos. Os pesquisadores constataram que as pessoas correm com mais afinco e mais rápido ao competir com seus rivais. Alguns dos entrevistados falaram sobre um truque haviam aprendido e os ajudava a concluir o percurso a que tinham se proposto: escolhiam alguém alguns metros adiante e se imaginavam jogando um laço ao redor de sua cintura e trazendo-o pouco a pouco para mais perto até alcançá-lo e acabar por ultrapassá-lo. Então, era só repetir a técnica com o próximo. “No entanto, o mais importante é que as pessoas percebam que não se trata simplesmente de ultrapassar o outro, mas a si mesmo”, afirma Kilduff. Não por acaso ele pedia para que os voluntários falassem sobre pessoas de idade e características semelhantes às suas, pois era com essas que mais se identificavam e, no fim das contas, terminavam falando das próprias potencialidades.

 

4. Fale sozinho
Uma conversa positiva consigo mesma ajudou Cindra a vencer a maratona Omaha em 2012. “Eu estava num lugar muito negativo durante a maior parte da corrida, mas nos últimos seis quilômetros e meio repetia a mim mesma: “Estou confiante, forte e preparada”, conta a corredora. Aqueles últimos quilômetros foram seus mais rápidos do dia e ela conseguiu estabelecer um recorde pessoal de tempo. Uma análise publicada em 2011 no periódico científico Perspectivas sobre Ciência Psicológica revelou que a conversa motivacional aumentava a confiança dos atletas e os tornava mais entusiasmados para vencer. Lesyk tem sua própria versão, que o ajudou a correr por 30 anos e a participar de 14 maratonas:” Sou um corredor, corro rápido e forte, esse é meu jeito e a cada passo me torno uma pessoa cada vez mais forte.”

 

5. Visualize
A ideia de fechar seus olhos e imaginar seu percurso de vencedor pode parecer um pouco fantasiosa, mas não se engane: as imagens mentais são uma ferramenta poderosa e têm sido bastante usadas por esportistas de elite, inclusive por participantes das últimas Olimpíadas. “Quando você se imagina vividamente fazendo algo antes de fazê-lo de fato, está essencialmente programando sua mente para pensar que é capaz, é como se fizesse seu cérebro ensaiar antes do movimento”, diz Cindra Kamphoff. Faça a experiência. Nas próximas vezes que for correr, tire cinco minutos antes para se imaginar cumprindo seu percurso de forma tranquila, com excelente desempenho. Incorpore a técnica à sua rotina e a repita duas ou três vezes por dia, mesmo quando não for treinar para familiarizar seu cérebro com cada movimento.

Todas as técnicas descritas não valem apenas para a corrida, mas podem ser aplicadas para se aprimorar qualquer área da vida. A prática esportiva, porém, pode ser uma excelente maneira de se acostumar a usá-las de forma agradável – e com resultados que podem ser contados em minutos, quilômetros e até medalhas.