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Pequena gigante

Manu Vilaseca está entre as principais mulheres que defendem as cores brasileiras nas competições de trail pelo mundo afora. Atualmente morando na Espanha, a carioca fala de carreira, trilhas e rumos…

Quem vê as fotos da Manu Vilaseca pelas mídias sociais e publicações esportivas em geral, sempre acompanhando resultados positivos em competições para lá de desafiadoras, já pensa logo numa gigante! E é. Em conquistas, determinação e personalidade. Mas ao encontrar Manu pela primeira vez, a primeira indagação que veio à minha mente foi: como é que esta “menina”, aparentemente tão frágil, faz tudo isso. Conheci Manu em Punta Arenas, no Chile, às vésperas da Ultra Fiord 2016. Era a segunda edição da competição considerada uma das mais difíceis do continente. Eu estava lá para correr 30K. Manu havia vencido os 70K no ano anterior e estava em busca de bicampeonato.

Depois de 11 horas de cansativa viagem, cheguei ao hotel oferecido pela organização e fui informada que dividiria o quarto com outra brasileira: Manu Vilaseca. Grata surpresa. Afinal, para quem curte corrida em trilha é como estar ao lado de Fabiana Murer para os fãs de atletismo.

Foram 5 dias de convivência e aprendizado. Por trás da dureza das competições que ela enfrenta, existe uma geminiana falante, divertida e generosa, em contraponto com a atleta focada, marrenta e forte. Infelizmente, este ano ela trocou as areias cariocas pelos montes e vales da Catalunha, na Espanha. Para o azar dos trilheiros e montanheiros brasileiros, vê-la correndo pelas nossas serras e praias se tornou um artigo de luxo! Graças à tecnologia, conversamos com ela e, nesta primeira edição especial trail do Jornal Corrida, ela conversa sobre carreira, provas e dá dicas para quem querer viver (ou aperfeiçoar) a experiência de correr na natureza.

Você sempre foi atleta. Como você foi parar nas trilhas? O que te levou a esse esporte? Por que?
O esporte entrou na minha vida aos 11 anos de idade, quando comecei montar a cavalo. Pratiquei equitação até os 25 anos. Eu era apaixonada pelos cavalos e não pensava em fazer nada além disso. Mas, um dia meus pais conversaram comigo e me disseram que não podiam seguir pagando, eu não tive outra opção que não fosse parar. O que pode parecer uma história triste, foi exatamente o oposto. O fato de eu ter parado com a equitação foi o que me permitiu iniciar em diversos outros esportes, e que ao final, me abriram as portas do mundo. Passei pelas corridas de aventura, mountain bike e triatlon. Somente em dezembro de 2011 experimentei minha primeira ultra de montanha. Encarei 160km, mas tinha a experiência dos raids de aventura, onde passava até uma semana competindo sem parar e dormindo quase nada. Eu já me conhecia muito e tinha a confiança de que podia me aventurar nesse desafio. O resultado foi a vitória feminina e sexta colocação geral. Com isso surgiu o patrocínio da The North Face Brasil e entrei no mundo do trail. 

Quais as principais características do trail que devem ser consideradas por quem quer fazer a transição da rua para a trilha/montanha?
O trail é um esporte selvagem, pois estamos na montanha e expostos ao humor da natureza. Esse é o principal e mais importante ponto. Quando fazemos uma ultra de montanha, muitas vezes podemos estar por horas e horas no meio do nada e sem ver ninguém. É importante saber se cuidar. Desde escolher a roupa e calçado que vai usar, até saber o que vai comer, se orientar e, principalmente, conseguir estar só, de dia, de noite, no calor ou no frio. Apesar de você estar numa prova, é primordial manter em mente que você não está num ambiente controlado. Que se você parar para descansar no topo de uma montanha nevada, você pode pagar com a própria vida. Acho muito importante saber respeitar as distâncias, começando aos poucos e só dando um passo a diante quando a distância que você corre estiver dominada. Esta é a chave para a vida longa nas montanhas.

Quais o pontos de treinamento que devem ser levados em consideração para quem vai para a montanha?
Você pode ser um excelente corredor de asfalto e não render nada na trilha. São esportes completamente diferentes. Na trilha ninguém fala em “pace,” que é a palavra chave no rua. Se numa prova você vai correr de mochila, tem que treinar de mochila. Se a prova é técnica, tem que buscar um terreno técnico para treinar. É importante fazer desnível e estar acostumado às horas. Eu costumo treinar por horas e não por quilômetros pois muitas vezes a quilometragem é relativa. Normalmente meu treinador me passa o tempo e desnível que tenho que correr, ao invés de definir uma quilometragem.

Você costuma dizer que a Patagônia Chilena é seu paraíso na terra, por que? O que tanta seduz naquela região?
A Patagônia é realmente um paraíso e quem já foi lá sabe exatamente do que estou falando. É uma região super selvagem e pouco explorada. Você pode estar por lugares onde não vai ver nada e ninguém. É uma natureza grandiosa, imponente e impressionante. Tem uma energia única e é difícil explicar e descrever…é um cenário de tanto detalhe que parece ter sido desenhado com um bico de pena. As cores são impressionantes. Eu já fui muitas vezes e acho que nunca vou cansar de voltar.

Você foi campeã dos 70 Km nas duas edições da Ultra Fiord. Como você define esta prova? Quais as características dela em relação às outras que você já participou?
A Ultra Fiord é uma prova que está nitidamente definida pela natureza. Nos 70K, por exemplo, você olha o gráfico da prova e o desnível e pensa que é uma prova fácil e rápida. Lembro que no primeiro ano eu perguntei ao Stjephan (organizador) que tempo ele estimava ao primeiro corredor e ele respondeu que era algo em torno de 9 horas. No primeiro ano o Xavier Thevenard estava nos 70K e não entendia como um corredor tão rápido como o Thevenard faria 70km em 9 horas, num percurso que apresentava aquele gráfico. Depois de correr eu entendi. Choveu a noite toda e as trilhas estavam dominadas por trechos de lama onde você afundava até o joelho. Fazia 4 graus e chovia muito. Com 15 minutos de prova já tivemos que cruzar um rio com água de degelo que cobria até o peito. Subimos uma montanha onde não existia trilha e íamos percorrendo por cima de uma vegetação rasteira até chegar nas pedras grandes e no glaciar. Nas trilhas do outro lado do glaciar, onde não havia barro, havia turba, vegetação típica da Patagônia que mais parece areia movediça. É uma prova de progressão lenta, não tem jeito. Na segunda edição também choveu e fez muito frio, o que resultou na redução e mudança do percurso. Nas duas edições da Ultra Fiord quem dominou e quem ganhou foi a natureza e o clima. Quem se dispõe fazer a Ultra Fiord tem que estar disposto a enfrentar essas adversidades.

Quais as dicas e sugestões você dá para quem querer correr a Ultra Fiord ou em outra prova da patagônia chilena?
Se inscrever numa prova com uma quilometragem menor do que a que você está acostumado a correr. Apesar de eu ter experiência em provas bastante longas, as duas vezes que fui para a Ultra fiord eu corri os 70K e acredito que se tiver de voltar pela terceira vez, outra vez farei os 70K. Pode fazer uma dia bonito e dar tudo certo. Mas se isso não acontece, as distâncias maiores ficam pesadas demais.

Quais as provas que mais te desafiaram e por que?
As provas em ambientes quentes e em altitude são as mais difíceis para mim. Eu imagino que fazer uma prova no deserto seria um desafio enorme para mim porque sempre perco muito líquido e me desidrato com facilidade. Altitude é outro fator que considero muito desafiador porque nunca vivi na montanha. Cresci à beira-mar. Quando fiz uma prova no Equador e tive que correr entre 3 e 4 mil metros, sofri muito. Apesar disso, tenho vontade de fazer provas nessas duas condições porque exigem muita superação da minha parte.

Você já fez a Mont Blanc (UTMB) e ficou entre as 10 primeiras colocações. Como você classifica essa prova? Qual conselho você daria para os brasileiros que querem fazê-la?
Ao meu ver a UTMB está entre as provas mais duras do mundo. São 170km com 10,000m positivos e 10,000m negativos. Tem que estar muito bem preparado fisicamente e mentalmente e mesmo assim pode dar tudo errado. Ano após ano vemos corredores extremamente qualificados que abandonam essa prova. Acho que o fato de cruzar a linha de chagada é um motivo para comemorar, como uma vitória. O primeiro ano fiquei em 8 e o segundo em 10. Ambos anos sofri e tive muitos problemas e dificuldades, assim como 99% dos corredores. Fazer uma prova como essa se sentindo bem do início ao fim eu imagino que seja quase impossível. Quem pensa em fazer a UTMB é fazer uma preparação muito boa. Acho que vale ir e fazer as outras etapas do Mont Blanc antes ( CCC, TDS, OCC). Isso sem dúvida ajudará no momento encarar a volta completa no maciço do Mont Blanc.

Quais provas no Brasil vc sugere como porta de entrada para quem quer entrar no mundo trail?
O Brasil tem um calendário bastante grande de provas trail, com características diversas. Alguns circuitos são provas mais “corríveis” e de estradão de terra, enquanto outros são de provas mais técnicas e com mais desnível. Acredito que para quem quer fazer provas na Europa, vale mais focar em desnível e terreno técnico, como o circuito KTR ou a Maratona dos Perdidos. Quem quer fazer provas nos Estados Unidos, quem sabe vale mais focar na velocidade com provas de estradão, como Xterras e APTR. O ideal é procurar provas preparatórias que tenham as mesmas características da prova alvo.

Das provas que você participou pelo mundo afora, quais sugere para os corredores do Brasil?
Tem muitas provas nesse mundão afora e fica difícil dizer uma! Gostei muito da Carrera 4 Refúgios, em Bariloche, Ultra Fiord em Torres del Paine, Lavaredo Ultra Trail, nas Dolomitas, TNF Endurace Challenge, em São Francisco, Buff Epic Trail, nos Pirineus, UTMF no Japão, Ultra Pirineu….

Você é carioca e hoje mora na Espanha. Por que esta mudança? Qual a participação dela em sua carreira?
Várias coisas, mas tudo facilitou porque eu tenho dupla nacionalidade. Eu sempre tive vontade de morar fora mas nunca arrisquei. O momento foi propício porque as coisas no Brasil começaram a ir de mal a pior. A economia só afundava e a violência só aumentava. Ano passado fiquei 3 meses na Espanha e gostei muito da vida aqui. No final da viagem conheci meu namorado e foi a gota d’água para reforçar que a minha decisão estava correta. Saí do Rio de Janeiro, cidade de 7 milhões de habitantes, para morar em Moià, um povoado de 5.500 habitantes. Foi uma mudança muito drástica, mas era o que eu precisava. A vida na grande cidade estava insana e eu precisava descomprimir essa loucura toda. A vantagem de estar vivendo aqui é que as provas mais importantes do circuito mundial estão mais perto. Também tenho a geografia toda meu favor. Esse ano, por ser um ano de transição, tem sido um ano muito difícil para mim, mas creio que agora estou começando a sentir que existe um chão embaixo dos meus pés e cada dia me sinto mais adaptada. Não tem jeito, quem escolhe tal mudança tem que aceitar esse processo.

Como é sua rotina de treinos?
Minha rotina continua bastante parecida com a do Brasil, exceto que aqui não tenho a areia da praia e a brisa do mar. Mas tenho trilhas super bonitas e não corro mais no asfalto. Alterno treinos de corrida com bike e nos finais de semana faço os treinos mais longos.

 
matéria publicada na edição especial Trail do Jornal Corrida
entrevista concedida à jornalista Roberta Palma
foto: arquivo pessoal Manu Vilaseca