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Ultra Fiord: na companhia de nossos maiores demônios e melhores anjos

Nos dias 6, 7 e 8 de abril foram mais de 50 horas acordada, acompanhando 300 corredores dos quatro cantos do mundo, que chegaram na Província de Última Esperanza em busca de uma aventura esportiva. Ou como declarou um atleta após cruzar a linha de chegada: a maior experiência física, mental e espiritual da vida.  Em 2016, estive na Ultra Fiord para correr 30Km, mas uma alteração climática, com tempestade de neve, cancelou a prova na metade. Agora, estava lá a trabalho. Ficaria à margem da trilha.

Observar e ter a oportunidade registrar cada emoção, reação dos atletas pelas ruas da cidade, retirada de kit, congresso técnico, largada, pontos de apoio do percurso e, principalmente, na chegada foi tão ou até mais gratificante do que correr.

Na véspera das largadas, no principal ponto de encontro dos inscritos – o La Mesita, um restaurante italiano “amigo” dos atletas, que oferece um cardápio especial “runners” durante toda a semana da prova –, o clima era de confraternização global, transformando o local numa verdadeira Torre de Babel. Era possível identificar representantes dos 5 continentes entre pratos de talharim e pizzas. Acompanhado por amigos que correriam os 70Km e de sua esposa Rose, o curitibano Rodrigo Ribeiro Rodrigues, não escondia a ansiedade pelas 100 milhas. Suas primeiras 100 milhas. Levando na bagagem a participação em provas como Indomit Costa Esmeralda, falou sobre sua apreensão em relação à diferença climática entre eventos no Brasil e na Patagônia. “Saímos do fogo para o gelo. E vai ser a primeira vez que vou correr usando grampon”.

Eu estive na Patagônia chilena em 5 outras oportunidades. Sempre a trabalho, a maioria delas correndo. E o que me marcou, desde a primeira viagem em 2012, foi a exuberância da natureza neste pedacinho abençoado do planeta. As cores são vivas. Um azul tão azul no céu, que colore os glaciares e picos nevados. O amanhecer é rosa. O entardecer laranja…Em 2016 foi o oposto: dias acinzentados, de muito frio, neve, nuvens. Mas, tive a sorte de rever a “minha” Patagônia neste outono de 2017. Sorte para mim e para os corredores que participaram da prova. O sol e o azul do céu reinaram durante dois dias e meio da competição (as imagens confirmam). Apenas por volta das 12h do sábado, dia 08, já nas últimas horas de percurso para os atletas dos 100k e 100 milhas, as nuvens apareceram, baixando ainda mais as temperaturas (apesar do sol, a média de temperatura ao longo da semana foi de 8 graus, em alguns momentos a sensação térmica chegava a zerar) e escurecendo o céu.

Apesar do frio, tão diferente do clima em nosso país, corredores do Brasil invadem a Ultra Fiord. Neste ano, mais de 40% dos participantes eram brasileiros. Nas 3 edições da prova, atletas do país sempre tiveram lugar de destaque no pódio. Em 2017 não foi diferente. Nos 50 K tivemos o mineiro Fernando Nazário campeão nos 50K (5h44”) e Maicon Cellarius (6h03”), em 3º. lugar. Nos 100K, o vencedor de 2016, Welliton Cairus, garantiu o 2º. Lugar (15h27”) e nas 100 milhas, Tessa Roorda foi a campeã feminina (28h33”) e Marcelo Sinoca terminou em 6º. Lugar (29h27”).

 

SEGURANÇA NA TRILHA

Para aumentar ainda mais a segurança dos corredores em um ambiente tão inóspito, em 2017 a organização realizou uma série de alterações. A primeira foi o rigoroso check-in das mochilas e backdrops (confira no vídeo do #corridanoyoutube, link no final da matéria). Foram mais de 34 itens, conferidos um a um, nos dois dias que antecederam às provas. Vestimentas, equipamentos e acessórios obrigatórios, primeiros socorros e alimentação. Tudo precisava estar em acordo ao que previa o regulamento.

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Outro ponto foi o congresso técnico. Dividido em 2 dias e conforme as distâncias de percurso e a língua de origem do participante. Num pequeno colégio, próximo ao local de entrega de kit, foram realizadas 2 palestras por dia, divididas em 3 salas. Em cada uma, um atleta com experiência em cada percurso especifico, e em um idioma diferente, passando as informações e tirando as dúvidas dos participantes. Numa sala atendia-se em espanhol, em outra em inglês e numa terceira em português. Fernando Nazário e Marcelo Sinoca, ambos com participação nas 3 edições da prova, foram convidados pela organização para atender os brasileiros.

Além disso, o percurso ganhou a “vigilância” de um helicóptero. Graças ao bom tempo, a aeronave pode ficar de prontidão, bem próxima ao ponto mais perto do glaciar – área de maior risco, para atender qualquer eventualidade.

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SÓ UMA ALTERNATIVA: SEGUIR EM FRENTE

Eram pouco mais de 19h30 do dia 08, quando os atletas amadores que estavam na trilha há mais de 42 horas cruzaram o pórtico de chegada da edição 2017 da Ultra Fiord. Naquele momento, ilustres anônimos eram reverenciados pelos vencedores da prova. Às 20h começaria a premiação das 100 milhas e 100k, ali mesmo, ao lado do pórtico, na praça do Skate Park, em Puerto Natales, à beira do Golfo Almirante Montt. Pensei: “chegar no final está mais emocionante do que para quem chegou em primeiro! Os primeiros chegaram sozinhos, com arena vazia, no meio da madrugada fria”*. Ironia? Não, é a Ultra Fiord, considerada uma das mais difíceis e selvagens do planeta. Nela atletas do mundo todo, independente de perfil, colocação ou objetivo pessoal, comungam de um mesmo desafio: chegar, cruzar aquele pórtico. Largou, não tem volta. Desistir é praticamente impossível. São kms e kms na natureza na companhia apenas de nossos melhores anjos e nossos maiores demônios.

Pude constatar isso em míseros 15 Km em 2016 e, também, conversando com dezenas de atletas, que cruzaram a linha de chegada este ano. Em 2018, espero estar lá de novo, só que na trilha. Trazendo novas experiências e histórias desta prova que, para muitos, é o trail mais surreal que acontece no continente americano. Mas se é uma corrida tão selvagem assim, por que voltar? Talvez porque naquelas parcas 3 horas que estive em seu percurso ano passado, pude constatar que ainda tenho alguns demônios a enfrentar…Ou não…Talvez seja porque cada vez que tenho a oportunidade de olhar as Torres del Paine, os glaciares e perder o fôlego apreciando tanta beleza natural, eu tenho a certeza de que meus anjos são inúmeros, enormes; e eles me enchem de confiança e garantem que o dia em que eu cruzar o pórtico de chegada da Ultra Fiord terei vivido a experiência mais transformadora, de coragem e fé de minha vida. E não tenho dúvida alguma de que não estarei sozinha….Quem vem?

(*N.R.: este texto foi escrito ainda em Puerto Natales, antes da “polêmica” chegada com festa para a última colocada na Maratona de Rotterdam)

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Para saber mais sobre a edição 2017 da Ultrafiord acesse os programas especiais em nosso canal no Youtube (disponíveis a partir de 25 de abril)

Para informações sobre provas na Patagônia Chilena (Ultra Fiord, Patagonian Marathon, Ultra Trail Torres del Paine) – quando acontecem, onde se inscrever, onde ficar, onde comer, etc, acesse o link. (disponíveis a partir de 25 de abril)

Para outras matérias sobre Ultra Fiord acesse o link.

 
 
por Roberta Palma
créditos fotos: percurso – Roberta Palma/Check-in – Roberta Palma/Helicóptero: Stjepan Pavicic (organização)/Tessa Roorda – Guillermo Salgado (divulgação/organização)
 

 

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