Share

Sobre desistir no meio da prova – por Valéria Spakauskas

No dia 06 de maio fui para o Desafio 28 Praias, para os meus primeiros 42K trail. Já tinha feito os 21k no ano passado e me rendi a esta prova, linda e desafiadora. Resolvi que voltaria para os 42 e comecei a treinar em janeiro. Foram  inúmeros longões, fiz musculação especial pra isso, yoga, alimentação e suplementação! Seria a primeira maratona trail, depois ter feito 5 no asfalto.

Mas não deu… Após de 15 k absurdamente difíceis, com muita subida, muita lama, barro, tombos, agachamento, corda, cipós, e o pior de tudo, muita gente querendo ultrapassar em situações difíceis,  atletas de revezamento, que fariam trechos mais curtos e literalmente empurravam os mais lentos (e os solos), colocando a segurança dos participantes em risco. Isso me chateou muito, me tirou a paz da mata, aquela sensação boa das singles…

Mas além desses atletas mal educados, o que pegou mesmo foi o tanto de barro e lama. Choveu muito, as condições das trilhas estavam bem ruins. Acabei com minha água nos 10k! E só tinha PC nos 15. A cada subida eu pensava em desistir, mas continuava tentando. Senti um cansaço fora do normal, senti meu coração se esforçando além do que estava acostumado, precisei parar várias vezes para recuperar o fôlego… A trilha parecia um sabão, os atletas caiam e a gente tinha que desviar deles e nos segurar no que fosse possível. Teve um desavisado que tentou me ultrapassar descendo a corda… Muita gente se machucou.

Acho que realmente não era o meu dia. Uma série de fatores contribuíram para que eu resolvesse parar. Meu corpo não estava em sintonia,  nem a paisagem deslumbrante das praias desertas me ajudou a recuperar o ânimo. Eu realmente estava muito fadigada, ou melhor, exausta.

Pensei muito, durante o percurso, se era boicote ou se realmente eu não daria conta. Não foi fácil, uma parte queria seguir a qualquer custo.  E fui pensando, meditando, mas cada vez mais certa de que não conseguiria completar. A gente pensa que desistir é fraqueza… Mas não é não. Entendi isso na raça. Quando cheguei no PC1 e me falararm que já tinham passado 4h de prova, aí eu realmente abri mão. Se continuasse, seria um sofrimento (aliás, eu já estava sofrendo muito). Iria terminar a prova sei lá em que condições.  Me arrastando, me machucando, me violentando.  Seria o contrário de tudo o que acredito e prego. Respeite seu corpo acima de tudo.

Resolvi parar! Não dava mais…O corpo todo tremeu de alívio. Foi uma sensação de redenção.

Pode parecer pouco, mas 15 k de barro, subida e tombos, em 4h, não estavam nos meus planos. Sabia que seria muito difícil, mas não tanto assim. Não sei onde errei, o que faltou, o que deveria ter feito, se foi a gripe, a falta ou o excesso, mas não deu. Meu treinador, mestre Branca, sempre fala que “a integridade física, o acabar bem a prova, vem sempre em primeiro lugar. Não importa o quanto você treinou. É só uma prova, não se arrisque”. Pensei muito sobre essas palavras e desisti. Peguei uma van, com mais três desistentes dos 42 e seguimos para o final da prova. Procurei a organização, entreguei meu chip (recebi um elogio pela atitude) e perguntei se poderia pegar a medalha pelos 15k concluídos (como no revezamento), a resposta foi “não só pode como merece”!

E foi assim, num turbilhão de emoções, de cansaço físico e mental, que eu optei por não prosseguir.  Não é fácil tomar essa decisão, mas foi a melhor escolha. Hoje sei disso… Trabalho com meu corpo, dou aula o dia todo, não poderia colocar em risco a minha saúde. Ouvi meu corpo. Ouvi a mente e ouvi meu coração. Aprendizado e experiência! Um dia de cada vez. Queria compartilhar com vcs esse outro lado, sem glamour mas com coração aberto e a alma exposta. Depois de 10 anos de corrida, aconteceu comigo. Faz parte … E como diz uma amiga: vida que segue! Agora é hora de recuperar o corpo, na paz , na calmaria. Um dia de cada vez. Respira e vai.

Namastê!

assinaturaValeria Spakauskas tem 50 anos, é formada em comunicação social. Instrutora de Yoga formada pelo Instituto Sivananda Brasil – DLS. Começou correr aos 40 anos e nunca mais parou. Maratonista com pretensões de Ultra! Treina com a Equipe Branca Esportes (SP). Fale com a Valeria: Facebook