Share

Na Maratona do Rio, uma estranha força… a me levar ! – por Vicent Sobrinho

Ainda escuro, ela abre os olhos, prevê e ora: “é manhã da 15ª MARATONA do RIO e hoje é o dia que foi tão esperado por ele. E por esse caminho iremos passar meu irmão. Enfim o ‘amanhã’ chegou. É o aqui … é o agora. Vou correr 42 Km para o tão sonhado: seu abraço e sua medalha após a linha da chegada.”

 

Na chegada...um par de tênis a esperar-te
Na chegada…um par de tênis a esperar-te

 

                                                                                                                                   (este texto é continuação do publicado anteriormente. Veja no link)

Patrícia Nicácio, 43 anos, lembra que em 2012, a convite de uma amiga da academia, com muito custo fez seus primeiros 3k numa esteira, meses depois participou de sua primeira corrida oficial, era um 10k.

“Levei mais de uma hora para completar 10k e o que me importava era tentar correr sem precisar caminhar”, observou. Foi nesses 10k que Patrícia descobriu a vontade e teve a certeza de que deveria fazer essa maratona. E impulsionada por uma “força estranha” selou esse desejo, um desejo ainda involuntário porque nem ela mesmo sabia o real significado da palavra maratona. Mas, sentia que esse dia iria chegar. “No final desses 10k cheguei extremamente emocionada e com uma forte sensação de que o meu irmão Ricardo estava ali correndo ao meu lado. Eu, com o corpo todo arrepiado, jurei a mim mesmo que faria a tal da maratona e que seria para ele.”

Após esse dia Patrícia não compreendia e sentia algo insólito no ar. “Era um questão que eu precisava responder! Era como um pulsar que se repetia e vinha, independente de hora ou lugar.  Eu me perdia em pensamentos relembrando com certa constância do que aconteceu no dia que corri aqueles 10k trazia junto as imagens, de um dia após o óbito do Ricardo, dos médicos me entregando o par de tênis no Hospital das Clínicas em 2010, do meu irmão, um apaixonado pelas corridas.”

Todos os sinais pareciam indicar o mesmo caminho para Patrícia, principalmente após um inusitado encontro com o treinador de seu irmão que disse que  Ricardo treinava e queria muito estrear a Maratona do RIO. “Ali, naquele dia, decidi que iria correr a maratona. Só me importava cruzar a linha de chegada. Eu estava decidida e iria terminar segurando aquele par de tênis que os médicos me entregaram”. Para Patrícia, naquela época, toda e qualquer corrida era maratona.

 

e no caminho o Sol e um turbilhão de emoções

“Eu larguei e não percebia, sei lá, não me sentia dentro da corrida. Acho que demorei três quilômetros para o corpo estar na maratona. O meu corpo tremia muito, sentia calafrios e durante toda maratona não consegui nem falar com ninguém. Só pedia para Deus para me ajudar a controlar essa emoção”. 
Ela sabia que estava preparada, afinal realizou seus treinos muito bem orientada: “O meu coração estava a mil, parecia que eu estava fazendo um treino de tiros, isso logo na largada e após 1 km não conseguia mais andar. Travei, isso mesmo, não conseguia andar. Eu não estava entendendo o que acontecia comigo.” 

 

SOCORRO !!

Foi no km 3 que pulou dentro da ambulância e ficou lá por uns 30 minutos. “Todos os corredores tinham passado por mim e EU era a ÚLTIMA. O médico não queria me deixar voltar para a prova porque eu não conseguia andar e meus batimentos estavam muito altos”.  Sem saber explicar como, ela foi caminhando adiante, sozinha…Quando percebeu, já era o quilometro onze. “Chorei muito, muito mesmo, porque não entendia a razão do meu corpo não corresponder, na minha cabeça só via meu irmão e a medalha lá na chegada, no pensamento uma questão:  Ricardo você deveria estar aqui comigo. Eu ouvia nitidamente o meu irmão dizer: Eu ESTOU aqui, vamos.. e senti as mãos DELE … fui me acalmando. O sol e os 30 graus castigavam e, definitivamente, comecei a correr num ritmo melhor e a partir do quilometro 26 passei as pessoas que estavam bem devagar. Pensava se EU conseguiria chegar. E, num piscar de olhos,  já avistava a placa dos 40 km. Comecei a chorar muito e meu gigante me dizendo: VAMOS! Foi uma experiência sensorial em forma de MARATONA. Uma aventura de corpo e Alma.”Patrícia conta que correu praticamente surda, nada ouviu. Lembra apenas que nos quilômetros finais, 40 ou 41 uma mulher gritou: “Força seu irmão está com você ai!”. Isso a despertou: era a hora, hora de chegar. Alguns metros depois sua amiga Débora aparece pela lateral, levando em suas mãos o par de tênis de seu irmão Ricardo e a chegada estava a menos de 200 metros. “Foi um misto de alegria e lágrimas, muitas pessoas gritavam. Era nosso desejo, que me levaria até o final mesmo que fosse gatinhando.” Patrícia precisou de 4 horas e 45 minutos para concluir e comemorou: “No primeiro centímetro após a chegada uma calma tamanha me abraçou, me fez forte e me deu mais certeza de que agora quero fazer uma maratona para mim. A lição que fica é que quando queremos conseguimos, mas temos que ter consciência de que uma maratona é uma distância de muito respeito não dá só para fazer na fé . Essa minha maratona foi SUPERAÇÃO total não só de corpo mas de ALMA este foi o principal aprendizado da minha insistência naquele dia”.

Cumpriu o que você chamou de MISSÃO celestial? E isso lhe transformou em uma pessoa muito diferente? “É verdade, mudei minha vida, o meu corpo, minha cabeça e me tornei muito mais forte com a corrida. Não tenho preguiça de acordar às 4 da manhã. Eu e muita gente que conheço, era uma dependente de remédios para emagrecer. E, agora, mesmo olhando para o estado de meus pés com tantas bolhas, eu não tive lesão, senti dores normais, algum desconforto nas costas e creio que até naturais de quem termina maratonas”.

Você voltaria a correr novamente a Maratona do Rio de Janeiro? Gostou da organização? O calor te afetou? “Não, quero correr novamente a maratona do Rio. Amei, água e Gatorade gelado, transporte tranquilo, kit lindo, tudo, Nota 10. Não senti o calor … talvez por tanta emoção.  Falar do meu irmão é tudo pra mim e a música Força Estranha/Roberto Carlos. Parece que foi inscrita para esse grande dia: Eu vi um menino correndo… Eu vi o tempo… brincando ao redor…Do caminho daquele menino… Por isso uma força…Me leva a cantar… Por isso essa força Estranha no ar. Por isso é que eu CORRO e não posso parar… Estive no fundo de cada… vontade encoberta… E a coisa mais certa de todas as coisas… Vale um caminho sob o sol… e o sol sobre a estrada. É o sol… Por isso essa voz tamanha…”

 

Vicent Sobrinho é jornalista e desde que correu sua primeira corrida, em abril de 1979, nunca mais parou. Dos 100 metros à maratona, já fez mais de 1.100 provas. Ao completar 50 anos em 2015 resolveu ser maratonista e em 10 meses completou 4 maratonas – todas sub 3 horas. Acompanhe o Vicent Sobrinho nas redes sociais: INSTAGRAM FACEBOOK