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Trilhas e muita lama à beira do Pacífico – por Karina Teixeira @corredoradavidareal

O Chile já é um dos destinos queridinhos dos corredores brasileiros. Para a maioria, a Maratona de Santiago. Para os mais aventureiros, as provas da Patagônia. No meu caso, era um mundo novo a descobrir, principalmente pelo fato de que seria minha primeira viagem internacional. E não seria qualquer viagem. O desafio era conhecer uma prova trail que triplicou de tamanho em suas 3 edições (2017 com 1500 corredores): a Torrencial Valdivia Trail Run, organizada pela Nimbus Outdoor e realizada na Selva Valdiviana, largando na costa do Pacífico.

A prova possui diversas opções de distâncias divididas em 2 dias, que em 2017 foram 24 e 25 de junho. Sábado: 11k e 18k. No domingo: 24k, 45k e 63k. Este ano, ainda foi lançada a Travessia Torrencial, onde os atletas corriam 24k no sábado e 20k no domingo, alternando a direção (e as trilhas) do ponto a ponto.

Confesso que queria mais quilômetros, mas sábia foi minha decisão de me inscrever para os 24k. A prova chama TORRENCIAL, então teríamos previsão de chuva. Na trilha e com frio. Corrida da Vida Real é isso aí: encarar novos desafios! Então ok, eu embarcava na minha primeira grande aventura com clima completamente diferente, o que me fez levar equipamentos específicos e obrigatórios na bagagem.

Partimos de Guarulhos com ponte em Santiago e destino final no aeroporto de Valdívia, que fica há uns 30 minutos de carro do centro da cidade. Mas afinal, que cidade é essa?

Conhecida por ter sofrido o maior terremoto do mundo em 1960, Vadívia é uma cidadezinha super aconchegante localizada ao sul do Chile, capital da região chamada de Los Ríos.

Nesta época do ano, a região é bem fria e chuvosa. Uma curiosidade é como a chuva cai na maioria das vezes: intensa e rápida, com intervalos entre uma e outra. Mas se prepare para contar com chuviscos e muito vento na maior parte do tempo.

Valdivia possui cerca de 155 mil habitantes, abriga diversas universidades locais e conta com uma população muito receptiva e amigável. Por ter tido colonização alemã, a cidade tem fortes características na arquitetura e gastronomia. Não é à toa que é a capital nacional da cerveja e possui uma das maiores cervejarias da região, a Kunstmann.

Na Expo Torrencial já pudemos ver um pouco de tudo isso. Realizada no centro desde a 5ªfeira, o evento é muito acolhedor e conta com uma festa de inauguração na primeira noite. Os organizadores e o prefeito fazem a abertura, cortam uma faixa simbólica e é oferecido um coquetel, com direito a cerveja do patrocinador Kunstmann, queijos e castanhas. Nos demais dias, temos feira normal com retirada de kit, espaço para venda de produtos do segmento e congresso técnico nos dias que antecedem cada distância.

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Antes da prova

Na 6ª feira, fomos conhecer uma região mais afastada, onde fica o Puerto Fuy, e a reserva biológica de Huilo Huilo, há cerca de 3 horas de Valdívia, contando com paradas fotos e selfies. Só o caminho já é encantador por seus lagos e cenários tranquilos. Os destinos, ainda mais incríveis. O Rio Fuy recebe esportes de aventura e o porto liga o Chile com a Argentina. Em Huilo Huilo, almoçamos no Nothofagus Hotel, que fica em meio a reserva biológica e tem uma arquitetura toda em madeira, perfeitamente ambientada com seu arredor e que acalma a alma.

 

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Em um portal próximo ao hotel, subimos de carro para a cordilheira onde pude conhecer a neve e encerrar o dia com a vista deslumbrante das cachoeiras da região. No sábado foi dia de acompanhar a chegada dos corredores que faziam a Travessia (saída da costa, Pilolcura e chegada em Casa Mans). Para ir até o ponto de chegada, pegamos um catamarã até o outro lado do Rio Calle Calle.

Chovia muito nessa manhã, além de frio e vento. Foi aí que eu comecei a perceber o desafio que me aguardava na prova, em especial devido ao clima. Na chegada, a organização ofereceu uma estrutura com comida e bebida pós prova além de fogueira para os atletas. Já dentro do catamarã na volta, um café da manhã mais elaborado foi servido a caminho do centro.

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A prova

Além dos equipamentos obrigatórios, coloquei mais opções de roupas na mochila, afinal tudo era possível. Para os 24k, pegamos um ônibus da organização no centro às 6h30 que nos levaria até a largada, na praia de Pilolcura.

A logística aqui foi fenomenal. De um ônibus grande, passamos para microônibus no ponto da estrada que ficava mais técnico. Tínhamos recebido a informação que andaríamos cerca de 2 km até a prova pois os veículos não estavam passando, mas em uma reorganização de van e carros de participantes, chegamos a arena, a beira do Pacífico com um cenário incrível.

 

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A primeira ladeira da prova já era visível da largada. Mas com a chuva intensa dos últimos dias e da passagem dos atletas das outras distâncias que largaram antes, o terreno já estava com uma lama judiada e aí já pudemos perceber como seria a prova, mesmo com uma trégua da chuva naquele dia.

Saindo dessa ladeira entramos de fato na Selva Valdiviana. Aí que o bicho pegou até o km 5. A subida ficou muito mais íngreme, técnica e a lama só parecia aumentar. Grip nenhum de tênis dava conta e aqui desgarraram os mais técnicos e treinados (não era meu caso, que fiquei para trás, mesmo sendo apaixonada por single track na subida). Os que haviam feito a prova no ano anterior, diziam estar muito mais difícil.

Foi aqui que coloquei em cheque se eu teria condições de acabar a prova, ainda mais por ter machucado o dedo da mão já no km 2 e estar sem pegada para me agarrar em árvores na escalada. Aqui valorizei os equipamentos que levei comigo: desde as luvas até o casaco impermeável que também protegiam da mata fechada e espinhos.

Foi então que dos 5k aos 18k a prova se tornou mais tranquila e com estradões de terra que vez e outra mostravam lindas paisagens pelo caminho. Nesse trecho, passamos por 2 pontos de apoio com água, isotônico, cranberry (muito comum por lá), castanhas e snacks salgados.

Tive medo do final. Se descesse na lama igual subiu, eu iria me machucar, certeza, rs. Mas a inclinação era menos desafiadora, a lama deu uma trégua e assim deu para chegar viva (mas com alguns escorregões) até a descida do morro final da prova, de onde pudemos ver o oceano e sua formação rochosa da costa lá do alto.

Aí foi só alegria! Aquele agradecimento por estar ali, por ter passado por cada perrengue no início e por completar uma prova divisora de águas do que eu conhecia em trail. Nunca cruzei um pórtico com tantas “marcas da guerra”, rs.

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Na tenda de apoio, muita comida e bebida local para comemorar o fim de mais uma edição de sucesso. Mas ainda tinha continuação dessa comemoração: a noite a organização agita uma balada para os participantes, mas que infelizmente não pude comparecer, pois embarcava de volta muito cedo no dia seguinte.

Nossa volta foi pelo aeroporto de Temuco, que fica há 1h30 de Valdívia. Também fizemos ponte em Santiago e enfim, Guarulhos, encerrando essa experiência sensacional, que brindou lindamente minha primeira experiência internacional e ainda com uma corrida que evoluiu a Karina pirambeira.

 

MAIS SOBRE VALDÍVIA

Turismo

Meu primeiro ponto de contato com a cidade foi o incrível Rio Calle Calle, que beira toda a região central e depois recebe o nome de Valdívia. Por sua extensão, podemos encontrar desde embarcações e jovens corredores enfrentando o frio, até leões marinhos relaxando em algum píer.

 

20170625_174047É lá também que fica o curioso Pêndulo de Foucault e onde acontece todos os dias pela manhã, a Feira Fluvial, com pescados frescos e outras iguarias. A cidade fica próxima a diversas regiões com foco em turismo de aventura. Então não é raro encontrar turmas de trekking, rafting ou outro esporte que te coloque em contato com a natureza. Inclua no seu roteiro Huilo Huilo e Puerto Fuy, que oferecem paisagens incríveis.

 

Onde se hospedar

Ficamos hospedados no Hotel Naguilán, a beira do Rio Valdívia, com um cenário encantador pelas manhãs, que pode ser apreciado pelas amplas janelas do restaurante, onde é servido o café.

Se seu exterior apresenta uma arquitetura imponente, seu interior é aconchegante e tradicional. Quartos amplos, com pé direito alto, mas simples em sua essência. Fique tranquilo quanto ao frio, pois a calefação nos quartos compensa até as noites mais frias e as manhãs mais chuvosas.

Já quanto ao serviço, pode contar com a atenção dos funcionários, desde levar uma garrafa de água aromatizada ao seu quarto, chamar um taxi ou deixar um café da manhã para 2 montado para a madrugada do dia seguinte.

 

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Onde comer

Na maioria das vezes jantei no próprio hotel (ótimo!) já que ficávamos fora durante o dia. Dica do prato com camarões para os amantes de frutos do mar! Já para os amantes de pizza e uma boa massa, tem com a Pizzeria Di Barón bem próxima ao centro.

No dia que fomos a Huilo Huilo, almoçamos no restaurante do Nothofagus Hotel em formato buffet com diversas opções deliciosas. E sim, mais queijos e castanhas! Uma opção bem atrativa que infelizmente não deu tempo de conferir, são as refeições a bordo pelo Rio Calle Calle. A vista é maravilhosa!

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Locomoção

A cidade é pequena, acaba sendo tudo muito perto e bem possível de se fazer a pé, em uma rua principal (que estava há uns 15 minutos a pé do nosso hotel). Como muitas vezes está chovendo, táxi é a melhor opção, mas não são em todas as ruas e momentos que você vê um disponível.

O que mais acabei utilizando, foi o Uber mesmo. Sim, existe Uber em Valdivia, mas ainda de forma tímida, assim como aconteceu por aqui no início. Então não estranhe se o motorista pedir para você ir na frente. Pode-se pagar em pesos, ou deixar cobrar no cartão, cobrando pequeno IOF.

Para ir de uma região a outra, usamos transfers, o que facilitou um bocado. Vale perguntar ao hotel sobre parceiros de passeios turísticos pela região, ou até mesmo entrar em contato com Alerce Outdoor, que foi quem nos levou a Huilo Huilo.

 

Karina Teixeira Apaixonada por corrida desde 2012, seja por asfalto ou trilhas, longas ou curtas, desafio ou diversão. Tudo tem seu momento. Com o perfil Corredora da Vida Real, defende a corrida da forma que que for prazerosa para cada um, considerando todos os desafios do nosso dia a dia. Acompanhe a Karina Teixeira nas redes sociais: INSTAGRAM FACEBOOK

 

O Jornal Corrida viajou para a Torrencial Valdívia à convite de Nimbus Outdoor, Sernatur (Servicio Nacional de Turismo) do Governo Chileno. Mais sobre o evento, assista ao programa especial em nosso canal no Youtube

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