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Ultra Fiord – Foi a melhor escolha! “Deu bom!” – por Ligia Almeida

 

No meu último texto falei sobre escolhas, em especial porque na ocasião optei pela a Ultra Fiord 100k. Como muitos já sabem, conclui a prova com sucesso após longas 27h e lá vai minutos, causando bastante preocupação para muitos, principalmente para o meu namorado Ricardo Fechio (Thor), que ficou de prontidão a lado do pórtico de chegada me esperando. Sai da patagônia chilena com algumas certezas, a principal que o Ricardo me ama mesmo! Pois além de estrear nos 50km no dia anterior, ele passou as 27 horas a minha espera.

Ultra Fiord e o que aconteceu na Patagônia

Eu e o Ricardo chegamos à Puerto Natales com alguns dias de antecedência. Entre um giro a pé e de bike conhecemos um pouco a cidade e, claro, fizemos muitas fotos. O cenário foi bem diferente do ano anterior, no qual amigos vivenciaram um clima totalmente inóspito com tempestade de neve e temperaturas mais negativas. Tivemos sensações térmicas negativas também, mas nada comparado a Fiord 2016. Foi de fato outra prova.

Ficamos em um hostel bacana com muitos mochileiros, muito típico para região que tem lugares belíssimos para explorar, por isso vive repleta de aventureiros.
Da janela do nosso quarto tínhamos a vista para as montanhas que do dia para noite ficaram branquinhas de neve. Quando vi meus olhos brilharam como os de uma criança quando ganha um brinquedo novo (rs).

Aproveitamos esses dias e seguimos as orientações dos nossos técnicos: tiramos o pé, descansamos e nos alimentamos bem. A largada do percurso de 50km foi um dia anterior da minha, eles largaram do Rio Serrano, cenário perfeito para mostrar o quanto aquele lugar é lindo com a neve. O Ricardo e outros colegas chegaram da prova falando maravilhas e também das dificuldades no bosque, pois passaram por muitos charcos, terrenos técnicos, com inclinação e neve. Para quem ia largar só no dia seguinte minha ansiedade aumentava a cada comentário.

Fiquei preocupada e tensa após congresso técnico, quando se falava em risco eminente de vida no trecho do Glaciar, com fendas e geleiras. Fazia parte dos equipamentos obrigatórios o crampon, que apelidamos de sandálias trail. Ouvi tudo com atenção e tentava manter o controle e percebia que estava segurando a respiração e falando pouco. Não tinha noção de como seria…

Criei uma expectativa de tempo, baseada em como conclui a Patagônia Run 125km em 2015. Na Argentina fiz em 18h40.É claro que estamos falando em formatos de provas diferentes, mas pensei nessa referência que pra mim fazia sentido, falei para o Ricardo: “penso eu que chego antes disso”. Então, programamos o relógio com autonomia para 20h.

Na noite anterior à largada dormi pronta como o de costume. Foi um sono picado! Acordei, tomei café e fomos para o ônibus, na despedida, o Ricardo me disse: “te espero até a hora que for preciso”. De ônibus, seguimos até o porto por uns 15 minutos. Embarcarmos em um catamarã até Balmaceda, local da largada. Foi um trajeto foi surreal de lindo pelos fiordes, de onde avistávamos os glaciares, um tipo de ave da família dos pinguins (não lembro o nome) e lindas cachoeiras de degelo com mais de 2 metros de altura, produzindo bastante barulho típica de filme. Me lembrou os Goonies…(rs)

Desembarcamos e nos deparamos com o Glaciar de Balmaceda, as lágrimas rolaram e vi mais pertinho NEVE, foi incrível. Logo entramos na cabana, pois estava congelante lá fora e precisávamos nos manter aquecidos. Ali fizemos a conferência dos equipamentos e marcamos nossa saída no passaporte da prova – uma forma de garantir a segurança dos atletas. Sem as devidas anotações, não seguimos nos PAS de controle, que anotavam nossa chegada e partida. O material do passaporte era a prova d’água, achei bem pensado!

Nossa largada aconteceu às 11h20. E adivinhem? Já na piramba! Em poucos metros já queria tirar o Anorak (capa impermeável), mas continuei com ele. Ali subi firme e, ofegante, senti as pernas pesadas. Pensei: deve ser por conta de largar na subida. Ficamos por alguns kms em grupo, até pisarmos efetivamente na neve, não pensei duas vezes tirei a luva e senti ela em minhas mãos. Uma sensação de euforia tomou conta de mim. E, alegre, eu não cansava de repetir pra mim mesma em voz alta: “obrigada meu Deus que lindo, obrigada meu Deus!”

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O terreno era bem técnico com pedras, neve e água de degelo. Como descer não é o meu forte fui com cautela. Tudo era novo pra mim, penso eu que de tanto segurar senti meu joelho que estava em tratamento nada sério. Mas senti, senti também um leve enjoo. Cheguei ao PC Chacabuco 1 onde fizeram as anotações necessárias ali me hidratei melhor. O que me fez pensar que não estava me hidratando muito. Nesse tipo de clima não se sentimos sede, e com toda minha preocupação com “iceberg” não dei a devida atenção (zero pra mim). Comecei a subir novamente rumo próxima montanha, avistei uma fila indiana, pois já iríamos descer. Ali seria um por vez, pois horas antes, um runner havia se machucado. Nesta descida íngreme colocaram uma corda, descemos tipo rapel. Foi tenso!

Respirei fundo e tornei a subir, quando escuto meu nome com sotaque “Lihia”. Era o organizador da prova, garantindo que todos estivessem bem. Foi animador vê-lo, me despedi dele e logo me deparei com a parede de gelo, hora de colocar o crampon. Olhei para trás e só eu estava diante das geleiras. Ali conheci o que é um ambiente inóspito, eu era um floco perante as imponentes montanhas brancas. Numa mistura de medo e admiração me orientava pelas marcações, que eram bastões azuis com refletivo.

O glaciar e suas fendas

Subimos uns 2 km e pronto o que temia estava diante de mim, íamos descer e já conseguia avistar as tais fendas (tipo rachaduras que divide em grandes blocos de gelo). Cair ali era uma vez a Ligia Almeida. Logo encontramos montanhistas profissionais com cães farejadores que nos orientavam manter na trilha mais escura da neve e assim fomos. Consegui me entender com as sandálias trail e com os bastões no downhill. Desci como se estivesse esquiando! Ah, isso foi por demais divertido! Eu gritava “uhuuuuuu” enquanto deslizava no tapete branco. Passado o perigo, chegamos ao PAS na floresta/bosque, tomei uma sopa o que ajudou a esquentar e me alimentar. Enquanto comia pensava: “demorei muito para fazer esse trecho, estou com uma progressão lenta, mas devo desenvolver melhor agora para chegar em Perales antes de anoitecer”. Doce ilusão! Parecia que não sabia correr, passada curta, não evoluía. Sabem quela expressão “tá amarrada em no de Jesus”? Era sim que eu me sentia, eu não entendia o que estava acontecendo. O começaram a martelar na minha cabeça frases como: “estou mal, correndo mal”. Tudo negativo martelava na mente. E quando a noite caiu, eu ainda estava na floresta nos trechos de charco, barro e terreno esponjoso.

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O cansaço perturbava minha cabeça, eu pensava “chegando em Perales irei parar”, em seguida mudava de ideia: “não, quando chegar lá vou trocar tudo e ver o que faço”. Uma enorme e confusa gritaria mental. Pouco antes de Perales encontrei o Marcelo Sinoca, que estava nas 100 milhas. Trocamos meia dúzia de palavras, e ele contou que não estava bem do estômago, não conseguia comer nada já a algum tempo. Chegamos na Estância Perales. Para mim eram os 45 km pra mim. Peguei minha bag e fiz uma troca de roupa completa. Comi novamente. O Sinoca conseguiu comer também, chamei ele para seguirmos juntos, mas ele preferiu aguardar mais um pouco, antes de sair ele me disse: “Li toma cuidado com a marcação muitos passaram e se perderam”. Agradeci e disse até logo pra ele. Renovada com a longa pausa, entrei no estradão e pensei: agora tentarei soltar as pernas”. Passei por mais um PC fiz as anotações, segui na batida e liguei no automático.

Perdida pelo percurso

A noite entrou gelada, eu estava em um estradão sozinha. Via o desenho das montanhas que não pareciam se mover. Entre marcha e trotar ia, e na minha cabeça via as marcações nos bastões e nas placas da estrada. Lembro que a meia começou a me incomodar, sentia fome e sede repentina, olhava pra trás assustada. Vi uma casa branca, tipo filme americano aquelas de veraneio mal-assombrada, a lanterna refletia dois pontos de luz baixos, era um animal de quatro patas que atravessava a estrada. Não conseguia identificar o que era. Podia ser um puma! Respirei aliviada embora com medo, pensei “graças a Deus não terei que voltar por aqui”. As vezes eu olhava o relógio e ele parecia voar nas horas, mas minha sensação era de que não saia do lugar. Nessa confusão mental, como que um estalar de dedos me veio um pensamento: faz tempo que não vejo bastão, mas havia visto um refletivo numa placa. Pensei: não é possível que eu tenha me perdido; segui mais 2km e nada de bastão, sim, eu havia me perdido. Voltei 10km e me lembrei das palavras do Sinoca e, claro, me martirizei pela estupidez e por não prestar atenção. Paguei um preço alto por isso…

Achei a marcação e alguns runners, chegamos no lago Doroteia não achávamos as próximas marcas/bastões, ficou um pouco confuso, pois havia uma bifurcação e muitos se confundiram nesse trecho. Ali perdemos um tempão e preferi ficar com eles já que havia me perdido momentos antes. Meu relógio com autonomia de 20h deu game over e vi que estava com 92km. Pensava no Ricardo, meu namorado, preocupado e me esperando na chegada. Óbvio que não estava em condições de fazer qualquer conta, pois não era só o meu físico cansado, mas minha cabeça também. Se estivesse com ela mais centrada saberia que dali para o final faltavam um pouco mais de 1 maratona.
O dia clareou pelas 8h da manhã e as paisagens maravilhosas começaram a aparecer, mas acreditem não estava mais curtindo, pois pensava na preocupação do Ricardo e dos amigos que torciam por mim. Tudo o que eu queria era chegar. A única coisa que me mantinha na batida era saber que o Ricardo havia dito que me esperaria a hora que fosse e com ele estavam meus 5 pontos.

No penúltimo PC tornei a pensar: já chega nunca desisti de uma prova, mas acho que esse é o momento; deu um bode nessa hora. Pedi para o staff chamar um carro pra mim, ele disse tem certeza? Me lembrei do Ricardo e dos abençoados pontos, respirei fundo e perguntei quanto tempo mais e quantos kms? Ele respondeu: “tem 21km, você deve chegar quando anoitecer. Pensei: o que? vou seguir, mas não chegarei a noite. Me reinventei nesse momento e deixei o mimimi e a mente ditou outro ritmo. Claro que com limitações devido ao cansaço, mas corri melhor do que vinha fazendo enquanto estava no maior conflito comigo mesma.

Quando cheguei no PC do Aeroporto, o último, a vista dele e de todo campo me deram nova injeção de ânimo. Ao atravessar a estrada um casal que estava de bike, seguiu comigo até a chegada, ele já havia corrido também, infelizmente não me lembro o nome deles ainda quero achá-los para agradecer a motivação. Como miragem vi o Ricardo e outra pessoa com ele (um francês – Julien Gileron – com quem o Ricardo fez amizade) vindo em minha direção. Foi um alívio! Quando dei por mim estava nos braços dele e ambos aos prantos passamos o pórtico. Cheguei, ufa!

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Posso afirmar que para entrar nesse tipo de prova/desafio além de ter o físico bem preparado, a alimentação redonda, os equipamentos necessários e obrigatórios são fundamentais, porque quando a cabeça não acompanhar parar com segurança é a melhor alternativa. Para mim deu ruim, mas deu bom! Estou eu aqui escrevendo esse relato extenso com o propósito que acertarem o máximo possível em qualquer escolha que façam para curtirem do início ao fim. Quero voltar para a Ultra Fiord, mesmo não gostando de repetir prova, essa eu quero voltar, para escrever uma nova e linda história.

A experiência vi lá sem dúvidas me proporcionou uma bagagem substancial para uma outra escolha de prova no 2º semestre a UAI – Ultra Internacional dos Anjos 235km. Para mim, em ambas quem ditou o ritmo foi a mente. Aguardem meu relato da Ultra dos Anjos, com essa eu virei a página na corrida para conquistar os pontos para o meu objetivo/sonho.

                                                                                                                                                         créditos imagens: arquivo pessoal e Wladimir Togumi 

 

Ligia Almeida é ultramaratonista e corredora trail desde 2010. Acumula pódios nos principais eventos do Brasil

 
 
 

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