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O meu Rastro – por @betapalma

Acompanhei a edição de lançamento da Mizuno Uphill, em 2012, à distância. Bem à distância. Na época, correr para mim tinha se transformado apenas em trabalho. De agosto de 2009 a meados de 2013, período inicial do Jornal Corrida me distanciei de treinos e provas. Trabalhar com corrida e viabilizar um produto editorial para o mercado de running brasileiro tomava todo meu tempo, me esgotava. Quanto mais o Jornal se consolidava, menos eu corria…Irônico, mas verdadeiro.

Correr numa serra, como a do Rio do Rastro, em distâncias superiores a 10K era realmente algo que não habitava meu imaginário. Por isso, quando vi amigos jornalistas, corredores, subirem aquela Serra, debaixo de chuva, vento, logo pensei: que insanidade! Isso não é para mim.

Mas como a vida é feita de impermanência e surpresas, em 2014, um convite para correr em Jerusalém me aproximou das médias distâncias e me “colocou na linha”. Treinos regulares, perda de peso, conciliar “negócio da corrida com minha corrida”. Enfim, voltei a colocar em prática tudo aquilo sobre o que escrevia e tinha vasto conhecimento acumulado, resultado de uma vida inteira no ambiente esportivo (meus primeiros trotes foram aos 12 anos…).

Da Meia Maratona de Jerusalém pulei para uma trilha no Costão do Santinho, depois mais uma na Patagônia Chilena, mais outra, e mais outra e mais outra…Em abril do ano passado, após a Ultra Fiord decidi que faria, ainda em 2016, minha primeira maratona e os 35km na Ultra Trail Torres del Paine. Definitivamente, o bicho da montanha e das médias e longas distâncias havia me picado. E eu estava amando o seu “veneno” circulando pelas minhas veias!

E exatamente há 1 ano, no dia 06 de setembro de 2016, recebi uma verdadeira “proposta indecente” por email: ser uma das embaixadoras da Mizuno Uphill 2017! Estava a poucos dias dos 35km da Ultra Torres del Paine. Pouco mais de 40 dias para a Maratona de Amsterdam. Vinha treinando bem, constante e forte desde o começo do ano. Como e por que dizer não a uma proposta dessas? Correr a mais desafiadora prova de asfalto do Brasil! Óbvio que topei na hora. Podia optar pelas 42 ou 25 km e, sabiamente, optei pelos 25. Ainda não havia feito meus primeiros 42, não sabia como me sairia na distância. Feliz com o convite, empolgada com o desafio e responsabilidade de representar uma marca e um evento tão importantes segui minha programação.

Assim como lá em 2012, na primeira Uphill, o imponderável e incontrolável da vida dominou os 12 meses seguintes, de setembro de 2016 a setembro de 2017. Choveu, ventou e muita coisa aconteceu! Lesão no ciático na Ultra, agravada na Maratona (que não completei!), acidente doméstico em dezembro com lesão no tornozelo que me deixou de molho, sem correr até final de março…E por fim, um diagnóstico de síndrome de burnout em julho de 2017, que me freou semanas antes da prova.

Mas não desisti. As montanhas sempre me chamam. Seja em percurso de asfalto ou trilha. Acho que é meu lado capricorniana, rsss, afinal as cabras estão sempre abrindo caminhos para chegar lá no alto e apreciar a paisagem.

Sabia que não estaria com o corpo 100%, não tinha treinado todo o necessário. Sabia que a montanha cobraria seu preço…Então embarquei para fazer meu melhor, com 70% do meu corpo, 100% da minha cabeça e 100% do meu espírito.

No dia da prova, apesar de minha largada ser só às 16 horas, acompanhei toda a programação como “imprensa convidada”: acordei às 4 horas, sai às 5h30 do hotel, acompanhamos largada e percurso do 42 Km e fiquei até as 14h na chegada, no alto da Serra. Almoço: marmita de grão de bico, batata doce e purê de batata. Lá no alto não tinha onde almoçar. Quando o celular avisou que eram 13h, comecei meu ritual de meditação e preparação mental.

Eu tinha a certeza que minha cabeça seria minha aliada ou meu maior obstáculo. Dezenas de corredores e amigos a minha volta. Naquele momento, nada nem ninguém distraia minha atenção. Estava ali, naquele momento fazendo meu pacto com a natureza e a Serra.

Descemos de van para a largada em Lauro Muller. Óbvio que a ansiedade e frio na barriga eram grandes. Encontrei o José Eduardo, blogueiro do Jornal Corrida, que ia para os 67 Km do desafio samurai (já havia corrida os 42km pela manhã). Troquei rápidas palavras com ele e desejei sorte. Me recolhi sozinha, próxima à largada. Quando o locutor, anunciou 5 minutos para a largar, fechei meus olhos e pedi. Pedi permissão à natureza e os seres de todo espécie que habitavam aquela Serra que me permitissem percorrê-la com saúde, em segurança e em total pacto com todos eles! Pedi licença e larguei no meu ritmo, no meu pace.

A serra do Rio do Rastro é imponente. Forte. Assustadora. Mas no dia 02 de setembro, eu brinquei nela. Me diverti em suas curvas. Foram 3h por seu asfalto duro e cruel. 19 km por seus paredões encantadores. Não desisti. Isso para mim foi uma pequena grande vitória. Depois de 12 meses de lesões e uma crise “pane geral na cabeça e corpo”, a pouco mais de dias da prova, trotar sorrindo, me divertindo e em paz naquele lugar, não tem preço. Tive o pôr-do-sol a me guiar. Bicho preguiça, guaxinins, cobras, vacas e bois me acompanharam pelo caminho. Estrelas me saudaram quando escureceu. O que mais poderia querer?

Desde embarquei sabia que não chegaria antes do tempo de corte do regulamento (19h30). Sabia que a Serra me cobraria todos os contratempos dos últimos meses. Mas eu só queria chegar! Estar ali. Não para provar nada para ninguém. Apenas para me “resgatar”.

Infelizmente, por questões de segurança, começaram a recolher os atletas do percurso antes das 3h30 do regulamento. Óbvio que não faria os 6k finais em 30 min. Eu só queria chegar ao limite proposto: 19h30. Este era meu desafio. Não deu. Paciência!

A serra continua lá. Linda. Sedutora com suas mais de 200 curvas. Meu rastro agora está nela. No momento certo vou reencontrá-lo. Estou feliz. Inteira. Corpo, mente e alma. Como disse no ônibus dos “recolhidos” (foram muitos…Contei mais de 50…mesmo quem estava a 2k da chegada foi recolhido): não tive pernas de ninja, mas a mente, espírito e o coração, esses eu confirmei que tenho! Obrigada #mizunobr #mizunouphill por essa experiência ! Serra do Rio do Rastro, me aguarde. Nossa história só começou. #50antesdos50 #jornalcorrida

Roberta Palma é jornalista por formação, marketeira por vocação e esportista por amor. Criou o JORNAL CORRIDA por acreditar que a prática esportiva é uma ferramenta de formação do indivíduo e de promoção de saúde e qualidade de vida. Fale com a Beta Palma: TWITTER FACEBOOK INSTAGRAM Leia mais textos do blog da @betapalma aqui