corredora mulher correndo em uma ponte Vida de corredora

Durante muito tempo nessa minha vida de corredora, ignorei completamente uma palavra. Não, não é uma palavra qualquer. É uma palavra que assombra muita gente, que dá forças a tantas pessoas e que pode encerrar ciclos prematuramente. Li-mi-te! Eis a tão temida palavra!

Acreditava que superava cada um dos meus limites sempre que percorria uma nova distância ou completava uma prova para a qual não estava devidamente preparada ou quebrava um recorde pessoal. Mas não. Isso era evolução, falta de juízo, dedicação. Limite é algo muito diferente.

Em 2016, aceitei um desafio enorme, que exigiria muito do meu corpo e da minha mente, que mudaria a minha relação com a corrida para sempre. Sabia que bateria de frente com a tal palavrinha. Li-mi-te. Quando optei pela Uphill, era essa a palavrinha que me aguardava. Pensava que seria Dedicação, mas ainda não sabia de nada quando me propus o desafio.

Foram meses de treinos pesados, lesões inesperadas, muita fisioterapia e insistência. O corpo dizia que não estava pronto, mas a palavra limite ainda não fazia sentido e isso não importava. Se no início, o objetivo era realizar um sonho, no final, já era provar ao mundo do que essa gordinha era capaz. Estava tudo errado. Só queria que aquilo acabasse, que o topo da Serra fosse conquistado e que a palavra limite deixasse de me assombrar.

Mesmo lesionada, cheguei à largada inteira e confiante. No início, a Uphill é uma prova de subidas normal. Difícil, mas normal para quem mora num dos bairros com mais morros de Belo Horizonte. Quando entrei na Serra em si e as subidas e curvas passaram a ser intermináveis, o corpo pedia arrego, mas a escolha foi ignorar. Sabia que estava chegando ao tal limite, mas continuava acreditando que era um fantasma, não existia de verdade. Comecei a negociar com a mente para enganarmos aquele corpo cansado.

O corpo precisava dar um jeito e deu. O limite foi ultrapassado, totalmente negligenciado e era preciso parar. Já que a mente ainda barganhava, não teve outro jeito. Numa das curvas, o pulmão parou. Parou mesmo. Assim, do nada, sem avisos. No momento em que puxei o ar, nada veio. Só um vazio e uma sensação de flutuar.

Foi assim que vivi meu limite. Na prova dos meus sonhos, numa das mais belas curvas da Serra do Rio do Rastro, com o meu corpo em colapso. Por um momento, morri. Foi grave, muito grave. Um corpo jazia no chão a pouco menos de 2km da linha de chegada.

Foi assim que entendi o que era limite. Foi assim que percebi a linha tênue entre superação e loucura. Foi assim que parei de correr.

Uma luta enorme essa de não correr. Lá se foram 16 meses de ansiedade, tristeza, falta de motivação. Afinal, é assim que a vida fica sem corrida. Mas acabo de receber a notícia de que poderei voltar. Treino de base, preparação e uma luz fortíssima no fim do túnel. Em breve, de volta às pistas! De volta aos abraços apertados na linha de chegada, a uma vida colorida e intensa! Em breve! Que delícia sentir tudo isso!