No começo do ano, escrevi um texto aqui para o Jornal Corrida dizendo como eu queria mudar meu foco de treinos esse ano. Queria treinar forte, baixar ritmo e fazer RP na Maratona de Santiago. E eu tinha total certeza que isso seria possível. Não foi.

Veio a #vidareal jogando na minha cara mais uma vez que nem sempre eu vou ter controle de tudo. De janeiro a abril trabalhei loucamente. Chegando já na virada da noite, exausta e sem condições de despertar às 5h para meus treinos. Não era preguiça, mas falta de condições físicas mesmo. Fora o cansaço mental que ajuda a detonar ainda mais o corpo.

Ainda assim todos os dias eu acordava com a esperança que seriam “dias melhores”. E assim foram se passando os 4 meses que seriam o macrociclo de Santiago. No final, não é que eu não treinei longos. Pior, não estava treinando nem 10k. Ainda engordei 6kg.

Muitos me falavam para mudar para os 21k. Ou ainda nem correr, só ir passear e assistir. Com certeza teria sido o mais consciente e recomendado. Mas gente, desculpa, sou eu: cabeça dura e caçadora de experiências. Como eu iria pra Santiago (minha primeira chance de maratona internacional graças ao VAMO.OOO, NaHora e Maratonas no Mundo) e não iria conhecer o percurso de uma cidade até então desconhecida por mim? Não dava.

Eu queria viver tudo aquilo. E já tive boas experiências de perrengue nas costas onde levei meu corpo ao limite (ex.: 28 Praias Costa Norte que não tava bem, Uphill e 75k em Bertioga – além das 4 outras maratonas na bagagem). Acho que dava pra ir pros 42k e acabar dentro de 6hrs né? Mesmo sabendo que eu andaria na maior parte, que iria sentir dores que nunca senti. Mas meu coração mandava fazer isso. Era uma oportunidade de fazer uma maratona por outra perspectiva, lá do fundão, filmando e conhecendo pessoas e histórias.

Foi fácil virar essa chave de performance pra bagunça? Não foi. Mas como eu sempre digo: nós temos que fazer aquilo que nos faz bem. A corrida tem que nos dar prazer. E foi com essa missão que cheguei em Santiago. Se eu fosse pra 21k, faria mal e triste. Nos 42k, fiz mal, mas extremamente feliz. Era minha primeira internacional, pô! Bora aproveitar!

Retirada de Kits

 A feira é realizada no Centro Cultural ao lado da Estação Mapocho. A expo é muito grande (pelo menos comparado ao que temos aqui) e muitoooo movimentada. Se prepare para chilenos trombarem em você loucamente (não sei porque isso acontece, é bizarro!).

São 2 andares com diversos stands na melhor forma “de tudo um pouco” e o que mais me chamou a atenção foram marcas running concorrentes em um mesmo espaço. A prova é patrocinada pela Adidas (que tinha o maior stand, ativações e também estava lançando o Adidas Runners em Santiago) mas também tinham stands da New Balance e Under Armour. Doido, né?

Apesar de não ser meu plano inicial, acabei ficando a tarde toda pela feira. Kit na mão, ansiedade por saber que eu estava prestes a fazer doidera, mas alegria na alma em estar ali.

A prova

 Diferente de uma prova que você se planeja, treina certinho, faz contas e mais contas de previsão de tempo, planeja os km de cada gel e chega na largada super ansioso, quando você não tem expectativa nenhuma, você vai pra largada muito mais leve, sem neuras, sem aquele pensamento frequente de que nada pode sair do plano.

Aqui meus cenários A, B e C eram completamente outros. A = 5h30, B = 6h mas sair com medalha, C = acabar viva. Todos eles contemplavam a diversão, alegria e registros da prova.

Minha ansiedade bateu quando cheguei na minha baia, que era acima de 4h30 (a última). Aqui em SP e RJ, é comum vermos muitaaaaa gente nesse bloco, assim como ver bastante gente chegando ainda na casa das 6h. Lá a baia das 4h30 nem tava tão cheia. Aí nesse momento pensei “lascou, vou ser a última; o plano era filmar o fundão, não fechar a prova”.

Na largada, um clima ótimo com direito a esquadrilha da fumaça fazendo 3 listras no céu. Saí ao lado de brasileiros, o que me deu mais conforto nas primeiras passadas, mas logo vi que eu tava ruim “memo”. Fui ficando pra trás e tentei encontrar o meu ritmo. Por volta do km 3 comecei a pensar seriamente o que eu estava fazendo ali. E se de fato fosse a última? Eu ia ficar meio triste. Me distraí com as árvores da larga avenida e minha paz voltou.

Um pouco mais pra frente, no km 6, ajudei uma menina que já estava passando mal, mas ela só repetia que precisava acabar porque tinha treinado muito para aquilo. Eu sempre fico muito chateada quando vejo alguém assim. Fiquei um tempo com ela e a deixei com staffs. Eu precisava seguir se não corria o risco de nem acabar minha prova. Mas depois disso, mudei o pensamento: se fosse pra eu ser a última, eu seria. Ia fazer transmissão ao vivo e tudo mais, rs!

Segui admirando as avenidas largas e extensas. Me surpreendi com o cenário! Achava que seriam ruinhas, com prédios ao redor, estilo centro de São Paulo. Mas foi completamente diferente, uma delícia! Mas é tão lindo quanto é seco, socorro! Meu nariz já estava sangrando no sábado e durante a prova sofri bastante com isso, mas melhor que calor extremo. O clima estava bom e foi esquentando aos poucos. Depois dos meus 30k já queimava bastante. Dá-lhe água! Nos 42k a hidratação era a cada 3k (exceto nos primeiros 12k que foi a cada 5-6). Nos 21k soube que estava com esse espaço maior a prova toda. Tenso.

Pelo caminho, encontrei um monte de brasileiros, que me deram muito ânimo e me fizeram muito mais feliz ao longo do percurso. Também me diverti com chilenos e gringos, cada um na sua vibe. E foi muito legal ver isso. Não necessariamente todo mundo ali do fundão é gordinho, não treinou, ou está machucado. Descobri que tem muita gente que vai pra 42k pra curtir. Sem preocupação nenhuma com o tempo, simplesmente por fazer algo que ama.

E foi isso que aconteceu comigo. Renovei meus votos de amor com a corrida depois de meses de perrengue e mesmo sentindo muitas dores na perna e a fascite no último bloco da prova. Cheguei vibrando e feliz, como se tivesse feito RP.

Fiz em 5h48, tempo que jamais imaginei fazer um dia (exceto Uphill que foi igual). Mas a alegria na alma, e finalmente fechar todo esse ciclo que eu passei fazendo o que amo, foi impagável. É como se tivesse libertado uma bola de agonia que viveu comigo nos últimos meses por não conseguir treinar e ver todos os planos desmoronando pra essa prova. Ao mesmo tempo, se não fosse essa prova, acho que eu teria desistido de correr.

O saldo disso tudo é uma Karina não só com 6kg a mais e muita resistência de menos. Mas uma Karina muito mais forte pra encarar a vida com mais garra. Só eu sei o que passei pessoalmente nesse período. E não foi fácil. Mas sobrevivi à ele e agora estou aqui, com a mesma vontade de seguir o que escrevi no primeiro texto desse ano aqui. Sigo acreditando e me reinventando a cada dia.

Obrigada, Santiago Maratón, por não me deixar parar.