Como trabalhar a resiliência mulher corredora

Todo mundo quer ter músculos fortes, resistentes. Corredores amadores e profissionais, buscam diariamente a superação na corrida. Porém, de nada adianta um corpo capaz de enfrentar os mais variados desafios se, do ponto de vista emocional, não formos flexíveis, ágeis, resistentes. E essas características se mostram justamente na hora das dificuldades quando de repente, tudo parece desabar ao nosso redor. Estamos falando de resiliência, um termo originário da física, mas também usado pelos psicólogos para falar da capacidade mental de se adaptar a novas situações quando surgem adversidades, traumas, tragédias, ameaças ou motivos significativos de estresse. Em outras palavras, é aquela característica que nos faz reconhecer a dor, a perda (jamais negá-la), mas em vez de se apegar ao que se foi, buscar descobrir outras possibilidades. E continuar a apostar no sonho, na alegria, na vida.

Foi em agosto de 2014 que Anelive Torres aprendeu, na prática o significado de ser resiliente. “Eu nem conhecia essa palavra, foi a partir daquele momento que fui conhecer o seu significado”, diz a corredora paulista de 37 anos. Numa manhã de sábado daquele mês, Ane saiu para treinar na USP e quis o destino que ela fosse personagem de um dos mais brutais acidentais envolvendo corredores na capital paulista. Em pleno horário de “pico” dos treinos, quando a cidade universitária paulistana chega a receber mais de 5 mil corredores para treino, um motorista embriagado perdeu a direção, atropelando 3 atletas. Um homem, que faleceu ainda no local, e duas mulheres. Anelive era uma delas.

A pisciana, nascida no interior de São Paulo, mãe de um menino e uma menina, corredora desde 2007, soube transformar o acontecimento em aprendizado e motivação. E em abril último conseguiu alcançar o objetivo para o qual treinava naquele sábado: completou sua primeira maratona.
Quando morou em Washington (EUA) por uma temporada, Ane foi apresentada à corrida. “Fui estudar por uns meses lá e via todo mundo correndo pelas ruas e parques. Comprei um tênis e resolvi correr também”, conta. Durante 6 anos seus eram apenas recreativos, para manter a forma e por diversão. Foi só em 2013, após o nascimento dos filhos que a corrida se tornou um estilo de vida para ela. Começou a treinar com regularidade e orientação especializada. Das provinhas de 5 e 10k com as amigas, saltou para os 21k. Sua primeira meia maratona, em fevereiro de 2014, foi sub 2 horas.

Só nos primeiros 7 meses daquele ano de 2014, Ane completou três provas de 21k. O que a levou a decidir treinar para uma primeira maratona. Estava inscrita para a Maratona de Buenos Aires 2014 e pré-inscrita para a Maratona de Paris 2015 quando o carro invadiu a calçada da USP, atingindo os 3 corredores.

“Felizmente eu só tive problemas ortopédicos, ruptura de vários ligamentos”, relembra Ane. “Minha história também poderia ter terminado ali, naquele momento”. Foram 3 cirurgias e 6 meses sem andar. “Minha primeira pergunta para o médico foi se eu poderia correr de novo. Quando ele disse que dependeria de mim, sabia que voltaria”, conta.

Enfrentou 12 meses de fisioterapia, 3 horas por dia, 7 dias da semana. “Quando deixei a cadeira de rodas e voltei a caminhar minhas pernas não tinham força, tive que recuperar toda a musculatura”. Para motivar ainda mais as cansativas sessões de reabilitação, Ane tinha em mente um objetivo: voltar a correr e completar uma maratona. Ou seja, dar continuidade ao planejamento anterior. “O sonho da maratona tinha sido protelado, mas não cancelado”.

A corredora Anelive Torres aprendeu na prática o significado de resiliência e não deixou o imponderável interromper seus sonhos. Ao contrário, apoiou-se neles para superar a adversidade.

No início de 2015, Ane recomeçou nos trotes. Em maio daquele ano fez seus primeiros 5k. “Naquele mesmo menos eu já me inscrevi para Paris 2016 e direcionei toda minha energia nisso”. Vieram treinos na USP novamente, “sem nenhum fantasma, quando passei pelo local do acidente pela primeira vez e bati o pé no chão e agradeci. Sou grata a todo o aprendizado que aquele acidente me proporcionou”. Além de entender na prática o que é ser resiliente, Anelive credita ao acidente um maior autoconhecimento e aprimoramento espiritual. “Hoje eu vivo intensamente o agora, estou presente em tudo que faço e da mesma forma que exercito meu corpo com a corrida, pratico a alegria, a gratidão e o perdão, porque a vida é um instante, que tem que ser pleno”. Pelas ruas de Paris, no último mês de abril, Anelive Torres fechou um ciclo em sua vida. Feliz, agora os planos são completar a maratona de Buenos Aires (que ficou suspensa), “Chicago, Berlim, Nova Iorque, UpHill, quem sabe um trail e tudo aquilo que me for possível”.

Aprendendo a ser mais forte
– Lembre-se de que por pior que uma situação seja ela não ficar da mesma forma para sempre, mas atitudes raivosas e violência (seja consigo mesmo ou com os outros) deixam marcas difíceis de serem apagadas.
– Não se compare aos outros, sua história é única, nem lamente não ter valorizado o passado quando era mais feliz, apenas viva o presente da melhor forma possível, construindo um futuro melhor.
– Não subestime situações desgastantes e arriscadas, pelo contrário, fique atento e seja cuidadoso consigo mesmo, evitando atacar-se com boicotes e autopunições.
– Mesmo nos momentos mais difíceis faça o que lhe faz bem, esteja com pessoas de quem gosta e permita-se ter momentos de tristeza, de recolhimento, eles são fundamentais para o amadurecimento psicológico.
– Evite ater-se excessivamente a palavras e acontecimentos negativos e desenvolva o hábito de interpretar situações ambíguas de forma mais imparcial.
– Aceite ajuda e n ão hesite em procurar um psicólogo. Pense que quando temos dor de dente buscamos um dentista capacitado que pode aplacar a dor. Da mesma forma, o psicólogo ou psicanalista é preparado para lidar com o sofrimento emocional.

matéria publicada na ed. 37 do Jornal Corrida
  
crédito imagem: Fernanda Balster