Trail run

Adoramos ter o controle das situações. E se existe algo que nos mostra de forma inequívoca o quanto esse domínio é ilusório é o contato mais próximo com a natureza, especialmente se essa experiência se der numa prova em que o clima muda de repente, é preciso de lidar com intempéries, chuva, frio e até neve, terrenos íngremes, descidas pedregosas no meio da mata, áreas escorregadias… E tudo isso em meio a cenários deslumbrantes, desses que enchem os olhos e nos fazem agradecer pela oportunidade de estar ali. Mesmo quem está acostumado a correr em provas urbanas encontra na natureza um desafio a mais. Não por acaso, cada vez mais pessoas são atraídas pela corrida de trilha (trail run) e pela corrida de aventura – que abrange outras modalidades que exigem conhecimentos de navegação por mapa (não necessários nas provas de trilha). Mas em qualquer dessas modalidades há imprevistos a serem enfrentados, o que faz com que a preparação mental e o autocontrole também sejam itens tão fundamentais quanto o par de tênis.

Lições do caminho

Correr na natureza, por montanhas e até geleiras sem a estrutura de apoio que estamos acostumados a ver nas provas de rua é mais do que um exercício de superação, força física e performance. É uma prática de habilidade mental, humildade e ressignificações.

O mineiro Fernando Nazário está entre os principais nomes do trail run brasileiro e sua história em provas de corrida na natureza daria um filme. Ou melhor, já deu um documentário: Entre gigantes, que será exibido no Festival de Filmes Outdoor Rocky Spirit, em setembro. Em 2012 fez sua primeira sua prova em trilha. Na companhia dos atletas Carla Goulart, Leonardo Guerra, Felipe Fuentes, Fernando integrou e capitaneou a equipe Go Crazy na Patagônia Expedition Race, uma das dez provas mais difíceis do mundo, com percurso de 565 km, com trail run, canoagem e MTB numa das regiões mais selvagens da América do Sul, no Parque Torres del Paine, extremo sul chileno.

Por um descuido na montagem do equipamento de canoagem e uma mudança inesperada nas condições climáticas no meio da prova, Fernando e seus companheiros passaram mais de cinco horas à deriva em pleno Estreito de Magalhães. “Naquele dia aconteceu de tudo conosco: as ondas e os ventos aumentaram muito, atingiram o caiaque, o que fez com que as saias de nylon saíssem e começassemos afundar numa água com temperatura de 4°; perdemos o telefone via satélite em meio aos ventos e ondas; ficamos perdidos numa ilha no Estreito, os quatro em estágio de hipotermia, sem alimentação, hidratação e nenhuma possibilidade de contato com a organização da prova para resgate”, conta Fernando.

“Tive de urinar no meu próprio pé para me aquecer; deitar abraçado com meus companheiros de equipe para que a troca de calor corporal não nos deixasse entrar em um estágio grave de hipotermia e morressemos ali”, lembra o atleta, que é também professor universitário, preparador físico e mestre em educação física, especializado em aspectos biodinâmicos e metabólicos do exercício. “Mais que manter a resistência do corpo, precisamos ter nossa mente alerta e focada para não sucumbirmos diante da força da natureza”.

Fernando reconhece: “Podíamos ter morrido ali, ficamos ilhados, no frio e sem roupa ou condições adequadas por mais de cinco horas, quando fomos encontrados pela Marinha Chilena”. A experiência da Expedition Race só fortaleceu Fernando, que hoje é um dos ‘embaixadores’ das provas de trail daquela região aqui no Brasil. Das montanhas das Minas Gerais, onde mora e está acostumado a treinar, o atleta passou a se sentir “em casa”, mas trilhas, geleiras e montanhas da Patagônia.

“Exorcizei os fantasmas em 2014, quando voltei lá para fazer 67 km no Ultra Trail Torres del Paine”, conta. Naquela região sempre existe a possibilidade de mudança de tempo, “quando largamos a informação era de que poderia chover, nevar, acontecer de tudo, mas felizmente dessa vez apenas os ventos castigaram e mais do que fazer as pazes com a natureza e trilhas daquele lugar indescritível, terminei a Ultra Trail em primeiro lugar. Foram 68.5km, com 5.700m de desnível, em 7h35min”.

Participar desse tipo de prova nos ensina que para descobrir algo novo, devemos começar preparando a mente.

Em 2015, Fernando Nazário voltou mais uma vez ao parque, para algo ainda maior: 100 km na primeira edição da Ultra Fiord, uma das provas trail mais selvagens e desafiadoras do mundo. “Fui em paz e feliz com a ideia de concluir a prova, pois era uma distância que nunca havia competido antes”, recorda. Durante os treinos em sua cidade, ele procurou meditar e pensar no que poderia encontrar na Patagônia. Mas nas trilhas nem sempre as coisas acontecem conforme a organização e os atletas planejam.

É a natureza no comando. “Competimos em uma temperatura muito baixa, atravessamos subindo e descendo uma montanha com neve até os joelhos, e eu nunca havia competido na neve”. Apesar da dificuldade, Fernando foi campeão nos 100 Km (em 2016 ficou em segundo lugar). “Participar desse tipo de prova nos ensina que para descobrir algo novo, devemos começar preparando a mente. Muitas pessoas me perguntam como encaro a dor e o sofrimento físico e eu respondo que o desconforto acaba no instante que me sinto integrado à natureza, meu pace e ela num mesmo ritmo. E quando ultrapasso a linha da chegada, não importa em que colocação, sou uma pessoa diferente daquela que largou”.

Seguindo os passos

O treinador Fernando Nazário apresenta oito dicas para quem quer se aventurar pelas montanhas. Para ele, as principais diferenças no treinamento de trilha e de asfalto são o ritmo e o preparo mental. “O terreno em trilha exige maior atenção com os pés e bastante treino específico em subidas e descidas íngremes. E a preparação mental é fundamental porque competimos em lugares sem volta, onde chegar ao destino só depende do próprio esforço. Não há como abandonar o percurso ou cortar caminho e não tem carro que leve você. Mas também a experiência não tem preço”.

 

matéria publicada na ed. 38 do Jornal Corrida