Parte 2: Guia de Altimetria para os últimos 21km da SPCity Marathon 2026
- Renata Monte Alegre
- 14 de jul.
- 6 min de leitura

Na segunda metade, o relevo suaviza, mas a prova fica mais difícil. Porque, sem subidas para justificar a perda de ritmo, sobra apenas um adversário: você!
Se você é um dos quase 8 mil corredores que em 2026 vão seguir pros 42km dessa prova e chegou inteiro ao Jockey Club na marca dos 21,1 km, pode comemorar! A parte mais pesada da altimetria da SPCity Marathon ficou para trás e o gráfico de altimetria praticamente se transforma em uma linha reta. Mas cuidado para não interpretar isso como uma notícia boa demais. A partir daqui, a SPCity deixa de cobrar metros de elevação e começa a cobrar decisões.
Aliás, essa é uma característica bem curiosa da SPCity: enquanto muitas maratonas concentram o sofrimento em grandes aclives ou rampas intermináveis, essa prova faz outra escolha. Ela elimina o relevo justamente quando a fadiga começa a aparecer. O corredor deixa de negociar com o terreno e passa a negociar com a própria cabeça. E é nesse momento que a maratona troca de personagem. Visualizar e se organizar pra essa mudança de narrativas é uma das estratégias mais importantes na preparação para o dia da prova. Bora entender isso melhor?
Km 21 ao 30: Começa o Teste Mental
Quem corre a meia-maratona termina a prova no Jockey. Mas quem escolheu os 42km, ganha uma nova prova. Literalmente!
É comum o corredor atravessar a marca dos 21km sentindo que "sobrou perna". Afinal, a maior parte da altimetria já passou, a frequência cardíaca caiu depois da 23 de Maio e o percurso agora parece muito mais amigável. Esse é justamente o risco. Na segunda metade da prova: entre o Jockey, Pinheiros e a chegada à USP, a altimetria praticamente desaparece. Ao longo de nove quilômetros, o percurso oscila poucos metros para cima ou para baixo, alternando pequenos falsos planos e trechos praticamente nivelados. O ganho e a perda de altitude quase se anulam. O relevo deixa de ser protagonista. Só que o corpo continua consumindo glicogênio, a temperatura continua aumentando e o relógio continua correndo. É exatamente por isso que esse trecho exige mais disciplina do que coragem.
A saída do Jockey costuma vir acompanhada de uma sensação perigosa de renovação. Muitos corredores enxergam a reta no bairro de Pinheiros, na região do parque Villa-Lobos, como uma oportunidade para acelerar e "garantir tempo" antes de chegar na temida USP. Mas isso quase nunca funciona: os kms entre 24 e 30 parecem fáceis porque oferecem poucas referências visuais. O percurso é mais aberto, a torcida diminui em comparação à energia da passagem no Jockey e o ritmo passa a depender muito mais da percepção de esforço do que da empolgação da largada. É um trecho de manutenção: quem administra bem essa fase costuma chegar à USP ainda tomando decisões. Mas quem exagera, normalmente entra nela apenas reagindo ao desgaste.
Por isso que a entrada pelo Portão da USP marca muito mais do que uma mudança de cenário, mas a chegada na parte mais honesta da maratona. Ali acabam as distrações da cidade e começa uma conversa bem mais silenciosa, entre o corredor e suas escolhas.
Se existe uma missão para os nove quilômetros entre a passagem pelo Jockey e a chegada na USP, ela pode ser resumida em uma palavra: consistência. Nem acelerar, muito menos recuperar o tempo perdido ou experimentar estratégias novas. Apenas continuar correndo, da forma mais inteligente que puder. É por isso que investir em informação pra ampliar o repertório nesse momento é uma escolha muito inteligente, se não for a única!

Destaques no Mapa de Altimetria (21 a 30km)
Relevo praticamente plano durante todo o trecho.
Variação altimétrica muito pequena: +6 m na saída do Jockey (21,1–24,5 km), -6 m em Pinheiros (24,5–27 km) e +8 m até a entrada da USP (27–30 km). Ou seja: oscilações inferiores a 0,3% na maior parte do percurso.
É o trecho mais constante da prova do ponto de vista altimétrico.
O vento, o sol e a monotonia passam a influenciar bem mais do que o relevo.
A entrada na USP marca a mudança da prova física para a prova mental.
Sugestão de Estratégia de Prova para esse trecho
Tente Fazer:
Mantenha o mesmo esforço da saída da meia.
Aproveite o terreno plano para estabilizar respiração e frequência cardíaca.
Continue se hidratando e se alimentando no esquema planejado e testado nos treinos
Corra pensando no km 35, não no 25.
Entre na USP com sensação de controle, não de sobrevivência.
Procure Evitar:
Acelerar porque "a subida acabou".
Mudar estratégia de gel, hidratação ou ritmo.
Correr olhando apenas para o pace.
Gastar energia tentando recuperar segundos perdidos na 23 de Maio.
Km 30 ao 42,1: a USP não tem subida, mas tem cobrança.
Existe uma pergunta que aparece em praticamente toda edição da SPCity: “a USP é difícil por causa das subidas?" A resposta curta e que pouca gente se dá conta antes de chegar ali: na verdade, não!
O último trecho da SPCity inclui um dos maiores desafios que passa a habitar a mente da maior parte dos maratonistas que escolhem completar 42km em São Paulo: a USP. Por isso, a informação pode surpreender muita gente: o relevo dentro da Cidade Universitária é curiosamente discreto. Ao longo dos últimos 12 km, a variação altimetrica gira em torno de poucos metros, alternando pequenos aclives e descidas suaves que, isoladamente e em outras circunstâncias, dificilmente chamariam atenção em um treino de domingo.
O problema da USP nunca foi a inclinação, mas como o corredor vai chegar ali. Depois de três horas de prova, até uma falsa subida parece uma montanha. O cérebro começa a interpretar qualquer mudança de ritmo como um esforço muito maior do que realmente é. A monotonia ajuda a ampliar essa sensação: avenidas largas, repetição da paisagem, diminuição da torcida e a impressão de que a chegada nunca se aproxima criam um ambiente muito diferente daquele encontrado na primeira metade da prova. É por isso que tanta gente descreve a USP como um lugar onde cada km parece maior do que o anterior.
A estratégia aqui tem que mudar completamente: até a meia, o corredor precisava administrar a altimetria. Agora precisa administrar atenção.
Esqueça o pace instantâneo, comparações com os primeiros quilômetros da prova ou qualquer cálculo sobre o tempo que poderia ter feito. O objetivo passa a ser executar um km de cada vez. Uma boa dica: dividir mentalmente esse trecho costuma funcionar muito melhor do que olhar para os 12 quilômetros restantes como um único bloco.
Quando o Portão 1 da USP finalmente ficar para trás e a avenida Lineu de Paula Machado reaparece, surge outra armadilha clássica em qualquer maratona: quando a chegada parece estar próxima, o corpo interpreta isso como autorização para acelerar. Só que ainda existe muita corrida pela frente!
Os últimos três kms recompensam o corredor que preservou energia até ali. Mas quem tentou antecipar a comemoração, normalmente transforma a reta final em um exercício de sobrevivência. Se você ainda consegue aumentar o ritmo quando avistar novamente o Jockey Club, significa que administrou bem toda a prova, e não apenas os quilômetros finais.

Destaques no Mapa de Altimetria (30 a 42,1km)
Relevo baixo e extremamente suave, nenhuma subida longa ou tecnicamente difícil.
Pequenos falsos planos e ondulações quase imperceptíveis.
Principal desafio da prova deixa de ser físico e passa a ser mental.
Monotonia da USP, fadiga acumulada e percepção de esforço tornam qualquer pequena inclinação muito maior do que ela realmente é.
A Avenida Lineu de Paula Machado parece convidar para acelerar, mas normalmente cobra esse excesso antes da chegada.
Sugestão de Estratégia de Prova para esse trecho
Tente fazer:
Corra pela percepção de esforço, não pelo relógio.
Divida mentalmente os últimos 12 km em blocos menores.
Mantenha a cadência mesmo quando o ritmo diminuir.
Aceite que o pace pode cair sem transformar isso em ansiedade.
Se ainda houver energia, deixe para acelerar apenas quando o Jockey realmente aparecer.
Procure Evitar:
Brigar contra cada segundo perdido.
Caminhar por desânimo quando ainda existe condição de correr.
Confundir reta com linha de chegada.
Dar o sprint antes da avenida Lineu de Paula Machado.
A chegada começa muito antes da linha de chegada
É curioso perceber que os últimos 21 quilômetros da SPCity quase não aparecem no gráfico de altimetria. E talvez seja justamente por isso que eles sejam tão importantes.
Na primeira metade da SPCity Marathon, o terreno vai dizer ao corredor onde é preciso respeitar o percurso. Já na segunda metade, essa responsabilidade passa a ser exclusivamente do maratonista. Nesse trecho, a cidade para de subir, mas vai exigir ainda mais maturidade dos atletas. E normalmente cobra com juros de quem confundiu relevo fácil com prova fácil. A gente espera que as informações até aqui sejam úteis pra te levar até a linha de chegada, no Jockey, seja vc um maratonista experiente, seja essa a sua primeira vez na distância.
Este guia completa o Mapa de Altimetria da SPCity Marathon 2026. Se você ainda não leu a primeira parte, vale começar por ela). O material já está disponível no site do Jornal Corrida e mostra como interpretar os desafios entre a largada na Praça Charles Miller e a chegada da meia-maratona no Jockey, incluindo o novo trecho do Pacaembu, o Viaduto Engenheiro Orlando Murgel, a subida da Avenida 23 de Maio e a sequência de túneis que antecede os 21 km.
Mesmo assim, ficou alguma dúvida? Deixa nos comentários. Se ela passou pela sua cabeça, provavelmente já está tirando o sono de muitos outros corredores. A gente ama correr atrás de quilômetros, mas ama ainda mais correr atrás de informação que faz diferença no dia da prova. #jornalcorrida #spcitymarathon2026
Referências Extras
Parte 1: COLA Mapa de Altimetria / os primeiros 21km
Parte 2: COLA Mapa de Altimetria / do 21km aos 42,1km
Km a Km comentado / 21km e 42km


