Fernanda Maciel bate recorde no Salar de Uyuni e percorre 172,8 km em menos de 20 horas

Ultramaratonista brasileira atravessou o maior deserto de sal do mundo, na Bolívia, a 3.700 metros de altitude, e superou em mais de 13 horas a marca anterior, estabelecida por outro brasileiro.
A ultramaratonista brasileira Fernanda Maciel estabeleceu um novo recorde absoluto de travessia do Salar de Uyuni, na Bolívia, considerado o maior deserto de sal do mundo. A atleta percorreu 172,8 quilômetros em 19 horas, 50 minutos e 8 segundos, entre os dias 28 e 29 de setembro de 2026, superando em mais de 13 horas o tempo anterior.
O recorde anterior pertencia ao também brasileiro Valmor Giuseppe Leonardo, que havia completado o mesmo trajeto em 33h04min10s, em 2023. Fernanda reduziu essa marca em 13h14min02s, estabelecendo o novo Fastest Known Time (FKT), ou tempo mais rápido conhecido, na classificação geral, independentemente de gênero.
A travessia aconteceu entre as localidades de Llica e Uyuni, em um percurso praticamente plano, mas realizado a aproximadamente 3.700 metros de altitude, condição que aumenta significativamente a exigência física de uma corrida de longa duração.
Quase 20 horas correndo a 3.700 metros de altitude
Fernanda iniciou o desafio às 5h do dia 28 de setembro, em Llica, na extremidade oeste do Salar de Uyuni.
Embora o percurso tenha apenas cerca de 311 metros de ganho de elevação, a altitude foi um dos principais fatores de dificuldade. A aproximadamente 3.700 metros acima do nível do mar, a menor disponibilidade de oxigênio exige adaptações do organismo e torna mais difícil sustentar o esforço físico por muitas horas.
Além da altitude, a brasileira enfrentou condições inesperadas no terreno. Uma tempestade de granizo havia deixado trechos do salar cobertos por água e lama, com buracos escondidos sob a superfície.
A navegação também exigiu atenção constante. Fernanda utilizou o trajeto registrado em seu celular para seguir a mesma rota percorrida por Valmor Giuseppe Leonardo em 2023, reduzindo o ritmo quando necessário para não se desviar do caminho.
Água, lama e dificuldades na alimentação
Depois de aproximadamente 145 quilômetros sobre o salar, Fernanda precisou atravessar áreas alagadas e parar para trocar os tênis e as meias. A atleta também relatou dificuldades para se alimentar a partir dos primeiros 100 quilômetros. Embora as pernas continuassem respondendo ao esforço, o estômago passou a apresentar problemas para receber alimentos.
A exposição prolongada ao sol, em uma paisagem aberta e com pouca proteção natural, tornou o controle da hidratação outro ponto importante durante a travessia. Sem estabelecer um ritmo fixo desde a largada, Fernanda procurou adaptar a velocidade às condições do corpo e do terreno. A estratégia era manter o movimento, evitar paradas desnecessárias e preservar energia para completar a distância.
Os últimos 27 quilômetros e a marca abaixo de 20 horas
Ao alcançar o trecho final de estrada, depois de aproximadamente 16 horas e 45 minutos de atividade, Fernanda percebeu que poderia terminar a travessia em menos de 20 horas.
Mesmo com o desgaste acumulado, conseguiu percorrer os cerca de 27 quilômetros finais a uma velocidade próxima de 10 km/h, chegando à Catedral de Uyuni à 0h50 do dia 29 de setembro. O cronômetro registrou 19h50min08s. "Meu corpo inteiro estava exausto. Mas continuei forçando. Foi pura força mental. Minhas pernas estavam destruídas, eu não conseguia mais ampliar as passadas. Sei correr nas montanhas, mas não em um terreno plano. Já não tinha mais força, mas fiz o meu melhor", relatou a ultramaratonista.
O resultado foi registrado como o novo FKT absoluto da travessia Llica–Uyuni, com confirmação pela plataforma Fastest Known Time.
Recordes fora das competições tradicionais
Aos desafios de ultradistância, Fernanda Maciel acrescentou, ao longo da carreira, projetos de velocidade em montanhas e ambientes extremos. A brasileira, que vive em Chamonix, na França, já estabeleceu marcas em locais como Aconcágua, Kilimanjaro, Monte Vinson, Carstensz Pyramid e Gran Paradiso, além de travessias em campos de gelo da Patagônia.
Entre seus projetos está a busca por recordes femininos nas montanhas mais altas de cada continente, as chamadas Seven Summits. Fernanda já conquistou marcas em cinco delas: Aconcágua, Kilimanjaro, Elbrus, Vinson e Carstensz Pyramid.
A atleta também possui resultados expressivos em competições de trail running, com vitórias na TDS (2009), Lavaredo Ultra Trail (2011), Transgrancanaria (2012) e Everest Trail Race (2013).
Nos últimos anos, porém, passou a dedicar parte importante de sua carreira a desafios individuais de resistência e velocidade, realizados fora do calendário tradicional de provas. "Esses projetos de longa distância são completamente incertos quanto ao resultado, e isso me assusta. Também adoro, porque é algo novo para o qual preciso me preparar e com o qual preciso estar conectada", explicou.
O que é um FKT?
A sigla FKT (Fastest Known Time) significa tempo mais rápido conhecido e é utilizada para registrar as melhores marcas em percursos determinados, como travessias de montanhas, trilhas e rotas de longa distância.
Diferentemente de uma competição convencional, o desafio não exige que vários atletas larguem juntos. O objetivo é completar um trajeto previamente definido no menor tempo possível, seguindo os critérios de registro e verificação aplicáveis.
No Salar de Uyuni, Fernanda Maciel estabeleceu a melhor marca geral conhecida para o percurso entre Llica e Uyuni, superando o tempo masculino e feminino anteriormente registrado.
OS NÚMEROS DA CONQUISTA
Atleta: Fernanda Maciel (Brasil)
Local: Salar de Uyuni, Bolívia
Data: 28 e 29 de setembro de 2026
Percurso: Llica–Uyuni
Distância: 172,8 km
Tempo: 19h50min08s
Recorde anterior: 33h04min10s — Valmor Giuseppe Leonardo (2023)
Redução do tempo: 13h14min02s
Altitude: aproximadamente 3.700 metros
Ganho de elevação: cerca de 311 metros
Trecho sobre o salar: aproximadamente 145 km
Trecho final em estrada: aproximadamente 27 km
Terreno: sal, água, lama e estrada



